quarta-feira, 13 de abril de 2011

Adeus às armas?

Um homem perturbado entrou em uma escola municipal no Rio de Janeiro, matou dez meninas e dois meninos, e se suicidou após ser atingido por um policial.

O caso suscitou muitas discussões pelo país.
Comparações com o caso da escola de Columbine, nos EUA, em 1999 levaram a (necessários) debates sobre bullying e sobre segurança nas escolas.

homenagem às vítimas da tragédia no Realengo no show do U2 no Morumbi, dia 09/04/2011 - foto de Renato Luiz Ferreira/AEMenos atenção tem sido dada ao aspecto de crime de ódio, expresso nos números de vítimas e nos depoimentos de testemunhas.
(os nomes de algumas das vítimas podem ser vistos na foto ao lado, da homenagem feita pelo U2 durante o show no Morumbi no dia 09/04)
O assassino não foi à escola para matar crianças.
Foi matar especificamente meninas.


Uma das coisas que mais estão dando o que falar é a ressurreição da discussão sobre o desarmamento.
O revólver 38 que foi disparado contra as crianças era, originalmente, uma arma legal, comprada há 18 anos e, posteriormente, roubada.

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), apresentou ontem o projeto de realização de um novo plebiscito sobre o desarmamento (houve um referendo sobre o mesmo assunto em 2005), a ser realizado no dia 02 de outubro deste ano.
A pergunta do plebiscito seria "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?"

Em 2005, 60% da população votou contra a proibição.
Sarney acredita que "a população foi induzida ao erro", pois "o que se nota é que a venda de armas torna o cidadão ainda mais vulnerável. E não seguro".
"A sociedade muda. O que estamos vivendo hoje não é o que vivíamos há alguns anos. Precisamos repensar o que foi decidido."
A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, apoia a proposta.

argumentos estúpidos na campanha contra o desarmamentoNa realização do referendo de 2005, foram gastos 5,7 milhões de reais na campanha contra o desarmamento, quase toda patrocinada por empresas de armamentos. A Taurus doou R$ 2,8 milhões e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), outros R$ 2,7 milhões.
A campanha pelo fim do comércio gastou R$ 2,2 milhões.

Gostaria de declarar que sou contra o comércio de armas de fogo e sou favorável à realização de um novo plebiscito.
Não sei se o episódio fez uma parcela significativa da população mudar de opinião, mas acredito que a opinião de muitas pessoas tenha sido manipulada na época do referendo pelo lobby dos fabricantes de armas e pela forte campanha contra o desarmamento feita por veículos de [des]informação como a revista Veja e a Rede Globo.

A proibição do comércio de armas não vai acabar com o comércio ilegal.
Mas vai reduzir a entrada de armas, antes legais, no mercado ilegal. Como foi o caso da arma usada na escola do Realengo.
Nem toda arma no mercado ilegal entrou em circulação ilegalmente. Quem tem controle sobre o paradeiro de uma arma na casa, carro ou bolsa de alguém?

E armas adquiridas legalmente não se tornam menos perigosas!
Eu não quero que você tenha uma arma em casa se meu filho for amigo do seu filho e for brincar na sua casa. Eu não quero que você tenha uma arma em casa e ela seja roubada por bandidos. Eu não quero que você tenha uma arma e seu filho ou sobrinho adolescente vítima de bullying um dia resolva levá-la para a escola para "se defender" ds colegas que o maltratam, ou utilize-a para cometer suicídio (óbvio que pessoas cometem suicídio sem ter armas, mas conheço pessoalmente casos de adolescentes que se mataram com a arma dos pais. E não conheci pessoalmente ninguém que tenha se matado de outra maneira, mas conheço gente que tentou, não deu certo, e hoje são felizes por não ter funcionado). Eu não quero que você tenha uma arma em casa e corra o risco de um dia decidir usá-la (você, ou sua esposa, seu irmão, seu pai, seu filho...) quando tiver uma briga no trânsito ou ou uma crise de ciúmes.

"Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas."
É verdade.
As armas apenas tornam isso infinitamente mais fácil.

Armas não sevem para proteger. Armas servem para matar.
E eu não acredito que o "cidadão comum" seja capaz de lidar com o poder imediato de vida e morte que uma arma proporciona.
"Boa parte dos homicídios não são cometidos durante assaltos. Na maioria das vezes eles ocorrem em decorrência de brigas e do consumo de álcool e drogas. A ausência de armas em situações como esta reduziram as mortes em 80%"
~ Paulo de Tarso Andrade (Economista)
porte de armaCarolina Daemon (praticante de tiro, acho que vale a pena acrescentar este detalhe) escreveu sobre o desarmamento em seu blog.
Ela menciona uma simulação de roubo doméstico, feita há alguns anos, onde militares treinados ("divisões de elite", não o "batalhão do quartel da esquina") e civis com porte de armas seriam os moradores de uma residência invadida.
O resultado: nenhum civil que sacou sua arma da mesinha de cabeceira "sobreviveu" a um ataque inesperado de um bandido armado.
"Sou bom atirador e, mesmo assim, fui ferido em assalto e vi minha mulher ser morta ao meu lado"
~ Ney Suassuna (ex-senador)
Ter uma arma não traz segurança para ninguém. Apenas reduz a segurança de todos.


O projeto do plebiscito ainda tem um longo caminho a percorrer.
Para começar a tramitar, ele precisa de 27 assinaturas, que estão sendo recolhidas. Será, então, votado no Senado, e se aprovado ainda terá de passar por duas comissões na Câmara antes de ser votado pelos deputados.
O deputado Marco Maia (PT-RS), presidente da Câmara, já declarou ser contra a proposta.

Para o líder do DEM, Demóstenes Torres, o plebiscito é um erro e não vai resolver o problema da violência: "A questão não é tirar a arma do homem de bem, mas impedir que ela chegue às mãos do marginal. É nisso que o governo deve se empenhar".

Eu estou com a mente um pouco tendenciosa ultimamente, e essas palavras me lembraram um vídeo que, felizmente, encontrei para compartilhar com vocês. Ele começa mostrando uma fala do ator e notório defensor das armas de fogo Charlton Heston (quem assistiu Tiros em Columbine, de Michael Moore, se lembra dele):
"Não há armas boas, não há armas ruins.
Uma arma nas mãos de um homem mau é uma coisa ruim.
Uma arma nas mãos de um homem bom não é uma ameaça para ninguém, exceto pessoas más."
Em qual categoria será que se encaixa essa garotinha?

U2 - Bullet the Blue Sky
Live from Boston, 2001

Um comentário:

mara* disse...

Não sou fã de U2, mas adoro a música 'Spanish Eyes'.

Beijão