Chevron é condenada no Equador a pagar US$ 18 bilhões
Um tribunal de apelação do Equador confirmou na terça-feira uma bilionária decisão contra a Chevron, que havia sido anunciada em fevereiro de 2011. A petrolífera foi condenada a pagar US$ 18 bilhões por danos aos que acusam a empresa americana de poluir a floresta amazônica e prejudicar a saúde da população. O valor representa um terço do PIB do Equador e, segundo o "Financial Times", é o mais alto por um crime ambiental na História. Inicialmente, um juiz ordenou que a Chevron pagasse US$ 8,6 bilhões por danos ambientais causados pela Texaco - comprada em 2001 -, mas o valor mais que dobrou, para US$ 18 bilhões, porque a empresa não fez um pedido público de desculpas como exigido na decisão original.
Agora, sempre que alguém pensa em vazamento de petróleo, pensa no desastre gigantesco da plataforma da British Petroleum no Golfo do México, no ano passado, que levou meses para ser controlado.
Porém, vazamentos menores também têm conseqüências muito graves e deveriam causar a mesma indignação. Ainda que aconteçam o tempo todo.
Para vocês verem que eu não estou exagerando: as manchetes abaixo são todas da última semana
Vazamento de petróleo atinge praia na Índia "Uma grande quantidade de óleo invadiu as águas de uma praia nas proximidades de Mumbai, na Índia. A catástrofe ambiental foi motivada pelo afundamento de um cargueiro."
(Band, 7 de agosto de 2011)
Vazamento de petróleo contamina Mar do Norte "A Shell tenta conter o segundo rompimento em duto da plataforma Gannet Alpha, na costa escocesa. Acidente é possivelmente o pior da década no Mar do Norte."
(Deutsche Welle Brasil, 16 de agosto de 2011)
No finalzinho de dezembro de 2010, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região cassou uma liminar obtida pelo Ministério Público da Bahia que impedia a exploração de petróleo na zona de amortecimento do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, a unidade de conservação marinha mais conhecida e importante do Brasil.
Desde 2003 não eram oferecidas novas concessões da Agência Nacional de Petróleo (ANP) na região por ordem do Ministério Público Federal.
Em 2010, o juiz Márcio Flávio Mafra Leal deu uma decisão de primeira instância ao caso, em que reconhecia a zona de amortecimento de 50 km ao redor do Parque.
Abrolhos é um local de preservação de recifes de coral (os corais estão em extinção em todo o mundo, e sua presença é necessária à sobrevivência de dezenas de espécies de peixes e outras formas de vida marinhas), local de procriação de baleias jubarte (Megaptera novaeangliae, espécie em extinção, que vive em águas mais frias no Pólo Sul e vem para o Brasil no inverno para dar à luz e criar seus filhotes) e abrigo de diversas espécies endêmicas (= que só existem ali, e em nenhum outro lugar no mundo).
"Abrolhos é a área com maior biodiversidade do Atlântico Sul", declarou Fábio Scarano, diretor executivo da ONG Conservação Internacional, responsável pelo estudo no qual se baseou o pedido de liminar.
Para que o Parque esteja realmente protegido, atividades de risco como a exploração de petróleo não podem ocorrer em suas imediações, e por isso é necessária a sua proibição em uma zona de amortecimento ao redor dele.
Quando foi aprovada a liminar com a proibição, o juiz Márcio Flávio Mafra Leal destacou que o risco de uma mancha de óleo atingir Abrolhos é real, conforme demonstrado pelo relatório da Conservação Internacional. "Se isso acontecer, seria um desastre de dimensões bíblicas e irreversíveis para o ecossistema da região e para o Brasil, com a possível extinção de várias espécies que existem apenas no local, conforme parecer do ICMBio".
A sentença que derrubou a liminar, do desembargador Olindo Menezes, não tem muito conteúdo jurídico ou técnico, de acordo com o site Ecopolítica. O desembargador usou argumentos como risco de "dano à ordem e economia pública", e afirmou que a liminar atinge o "planejamento estratégico da matriz energética do país" e é um "risco à própria segurança nacional", quando o único risco eminente é ao ambiente e à economia local, como a pesca e o ecoturismo.
Como dito no site, "há alternativas à exploração em Abrolhos e pode não haver remédio aos danos causados por um vazamento significativo de óleo que atinja o parque". Marcello Lourenço, ex-chefe do Parque Nacional de Abrolhos, argumenta juridicamente contra a decisão do desembargador: "Existe o princípio de precaução, adotado na Agenda 21. Não podemos tomar nenhuma atitude que não se tenha certeza do impacto ambiental daquela ação. No caso do petróleo, se encaixa perfeitamente. Não sabemos o que pode acontecer, caso haja exploração, seus riscos, acidentes... Além disso, esse princípio faz parte da legislação ambiental brasileira".
Segundo Guilherme Dutra, diretor do Programa Marinho da Conservação Internacional, a decisão "está sendo discutida na coalização SOS Abrolhos, que possui 23 organizações. Estamos bastante preocupados. Vamos procurar o Ministério Público para entender qual será a postura deles e, se for o caso, dar um subsídio técnico para possíveis recursos".
No Twitter já existe uma campanha, com a tag #abrolhoslivre
Simulação feita pela Conservação Internacional em 2005, em um estudo sobre o impacto de vazamentos de petróleo em Abrolhos
Não é exatamente uma novidade, mas eu encontrei hoje e quero compartilhar. A cantora folk (ou melhor, anti-folk, segundo ela) americana Kimya Dawson (responsável por boa parte das canções do filme Juno) fez uma música sobre o derramamento de petróleo no Golfo do México.
Eu adoro a Kimya. Suas músicas são simples, mas dizem tudo. Ela publicou o clipe abaixo em seu blog no dia 24 de junho.
Driving Driving Driving
I'm not a conspiracy theorist, but I read blogs by scientists And I believe they know more than we are being told By the mainstream media sources who want the truth to hold it's horses so there isn't mass hysteria as the sea floor erodes
And those in and on the ocean all say hey what's this commotion and they try to get away but they are moving in slow motion because their bodies are so heavy from a substance thick and deadly they say I don't want to die It's all your fault I wasn't ready
I'm so sorry and I'm scared and sad and mad and unprepared to see the stuff that's in the sea evaporate into the air where it will gather and form clouds that travel north upon the wind and drop their cool refreshing poison raindrops on our crops and children
So this may be the end I've always thought the end of man would be exactly what we need for the earth to stand a chance And I always thought I would be fine If this happened if my lifetime But now that I'm a mother it seems much more terrifying
And I've always identified with a turtle's soft insides Because there are times when I really need to hide But even the strongest, hardest, thickest shell is not designed to survive, to survive, to survive
Something of this magnitude
Because water is fluid and oil is crude
And it billows way down deep and it sticks to grains of sand And it floats upon the surface where the birds all try to land And the marshes are all ruined and ecosystems destroyed And the people all along the Gulf Coast are now unemployed
While the men who cut the corners still scream DRILL, DRILL, DRILL from their yachts so far away and their mansions on the hill And they turn away the cameras and scream KILL, KILL, KILL As they light endangered sea turtles on fire
They light turtles on fire
Because the seas are all connected, and we are all connected And you are in denial if you think you won't be affected You can't hide behind your flag because water knows no border It will creep in every crack and seep in every pore
They lie about the numbers the solutions are illusions But no cover up can hide this huge of a contusion On the face of our mother, that's right, mother earth Is the cost of every living thing what your product is worth?
Well, we are all afflicted with an underground addiction will our desire for convenience be the cause of our extinction? And the industry's the master and we are all the slaves And we're DRIVING, DRIVING, DRIVING to our GRAVES, GRAVES, GRAVES
We must teach our kids to love themselves and let them live their lives What will they be if they grow up? Whatever they like. It's crucial to raise children who don't do what they're told Who will fight for what's right and who can't be bought or sold
I want nothing of this business I am staying underground And I'm gonna ride the railroad and let my guard down We can forage, and ride bikes, and jump in lakes, and go on hikes We can sing and sing for hours and click LIKE, LIKE, LIKE
When somebody posts something good we share and spread the truth It's time to define what success means to you I hope my kid will never be another cog in their machine Trapped inside a box trying to remember her dreams
They will sell us all out for their GREED, GREED, GREED As we cry for the earth as she BLEEDS, BLEEDS, BLEEDS
So hold on to your loved ones, yeah, hold on for dear life Try to walk like thunder leaving footprints that are light Hold on to your loved ones, hold on for dear life Try to walk like thunder leaving footprints that are light
I'm not a conspiracy theorist, but I read blogs by scientists And I believe they know more than we are being told By the mainstream media sources who want the truth to hold it's horses so there isn't mass hysteria as the sea floor erodes
And those in and on the ocean all say hey what's this commotion and they try to get away but they are moving in slow motion because their bodies are so heavy from a substance thick and deadly they say I don't want to die It's all your fault I wasn't ready
Em meio a toda a comoção causada pelo derramamento de petróleo no Golfo do México – que começou em 20 de abril e ainda continua (veja vídeo ao vivo nesta outra postagem) – uma reportagem publicada no New York Times no dia 16 de junho relata a situação no Delta do Níger, sul da Nigéria, onde grandes vazamentos de petróleo ocorrem há 50 anos. Mais de 2 bilhões de litros já vazaram no Delta do Níger, o equivalente a um derramamento do navio Exxon Valdez (de 41 milhões de litros) por ano. O petróleo vaza quase todas as semanas, e alguns pântanos há muito tempo não têm mais vida.
Segundo reportagem da National Geographic, de 2007, relatórios da ONU identificaram diversas estratégias questionáveis empregadas na Nigéria pelas petrolíferas, incluindo: pagar chefes das comunidades pelo direito à exploração; construir estradas ou canais sem estudos de impacto ambiental; arrastar processos por anos nos tribunais; enviar forças de segurança para acabar violentamente com protestos; não limpar o local após vazamentos de óleo. As companhias também praticam a queima do gás que sai do solo quando o petróleo é extraído, uma prática, teoricamente, ilegal, tanto na Nigéria quanto nos Estados Unidos. Pessoas moram, literalmente, ao lado de chamas ao nível do solo e do tamanho de prédios, que queimam 24hs por dia, algumas há 40 anos.
A Nigéria é o país mais populoso da África, com 130 milhões de pessoas. O país produziu mais de 2 milhões de barris de petróleo por dia no ano passado. O petróleo representa 95% das exportações e 80% dos lucros do país. Ironicamente, como as refinarias estão sempre quebrando, a Nigéria precisa importar seu combustível.
Quando a exploração do petróleo começou, na vila de Oloibiri, a Nigéria ainda era uma colônia britânica. O país só se tornou independente em 1960. Em 1966, dois golpes sucessivos por diferentes grupos militares deixaram o país sob uma ditadura militar. Uma nova constituição foi promulgada em 1977, e eleições foram realizadas em 1979, sendo ganhas por Shehu Shagari. Porém, em 1983, um novo golpe inicia mais uma ditadura militar, que só terminaria em 1999. (fonte: Wikipedia)
A a indústria do petróleo foi nacionalizada em 1971. O Estado, em nome da Nigerian National Petroleum Corporation, recebe 55% dos lucros das operações das multinacionais em terra. Embora, nesse meio tempo, o governo tenha passado de ditadura militar a democracia (duas vezes), uma coisa não mudou: a corrupção. Apesar da região contribuir com cerca de 80% da receita do governo, a população do delta do Níger é muito pobre e a expectativa de vida é a menor do país.
Port Harcourt, a principal cidade da região do petróleo. Fotografia de Ed Kashi (National Geographic)
O governo documentou 6.817 derramamentos de petróleo entre 1976 e 2001 – praticamente um por dia por 25 anos – mas analistas suspeitam que o número pode ser dez vezes maior. (National Geographic) Os vazamentos são causados por dutos velhos e enferrujados, nunca fiscalizados devido a uma regulamentação ineficiente ou corrupta, e afetados por manutenção deficiente e sabotagens.
As companhias culpam sabotagens e roubos pelos vazamentos, especulando que membros da comunidade causam derramamentos deliberadamente para receber compensações. Caroline Wittgenstein, porta-voz da Shell (responsável pela metade da produção do país) em Lagos, disse: "Nós não discutimos vazamento individuais", mas argumentou que a "vasta maioria" é causada por sabotagem ou roubo, com apenas 2% devido à falha de equipamento ou erro humano.
Mas muitos especialistas e autoridades locais dizem que as empresas atribuem excessiva culpa à sabotagem, para diminuir sua responsabilidade. Ricardo Steiner, consultor de vazamentos de petróleo, concluiu num relatório de 2008 que, historicamente, "o índice de falhas nos oleodutos na Nigéria é muitas vezes maior que aquele encontrado em outras partes do mundo", e observou que mesmo a Shell reconheceu que "quase todos os anos" um vazamento pode ser ligado a um oleoduto corroído.
E não é somente o ambiente que sofre com a poluição. Em 1999. cidadãos da comunidade de Erovie começaram a ter problemas de saúde (vômitos, tonturas, dores de estômago e tosse) pouco depois que a Shell jogou um milhão de litros de resíduos em um poço de petróleo abandonado. Dentro de dois meses, 93 pessoas haviam morrido da doença misteriosa.
Testes feitos independentemente por duas universidades da Nigéria e três outros laboratórios, conduzidos no ano seguinte, indicaram que a substância despejada era tóxica. Todos os testes confirmaram concentrações muito acima dos limites aceitáveis de chumbo, zinco e mercúrio, que provavelmente contaminaram o solo e a água da região. A Shell e o governo da Nigéria se recusam a se responsabilizar, afirmando que a substância despejada é inofensiva. (leia mais no site CorpWatch)
(Gente, acho que já vi esse filme... Cadê a Erin Brockovich para defender as pessoas e o ambiente, quando o descaso acontece longe dos subúrbios americanos?)
A reportagem da National Geographic discute as repercussões sociais da exploração de petróleo na Nigéria. As companhias multinacionais não contratam funcionários dentre a população local. Membros das comunidades, que viviam basicamente da pesca, não têm mais fonte de renda nem alimento.
Em Oloibiri, cuja população baixou de 10.000 a menos de 1.000 pessoas nos últimos 30 anos, o chefe Osobere Inengit pede aos estrangeiros para enviar uma mensagem à Shell. "Diga a eles para nos ajudar. Diga a eles para treinar 50 garotos e garotas do local para empregos." E suspira: "se nunca tivéssemos visto petróleo, estaríamos muito melhor".
Esse descaso social leva pessoas sem perspectivas a atos desesperados. Atos de vandalismo e violência contra funcionários das multinacionais se tornam cada vez mais freqüentes, e seqüestros pelo dinheiro do resgate já se tornaram uma fonte de renda para algumas pessoas.
Militantes de grupos armados, como o MEND (movimento pela emancipação do delta do Niger), matam soldados e seguranças, seqüestram trabalhadores estrangeiros das companhias petrolíferas, sabotam poços e oleodutos e, em ocasião de uma visita de executivos chineses da indústria do petróleo, explodiram diversos carros-bomba na cidade de Warri.
Membros do grupo armado MEND Fotografia de Ed Kashi (National Geographic)
O governo da Nigéria responde a esses ataques com devastação. Em uma tarde, uma gangue em Port Harcourt seqüestrou um empreiteiro italiano que trabalhava para a companhia petrolífera Saipem. Durante o seqüestro, um soldado foi morto. Dentro de poucas horas, tropas invadiram uma favela e atearam fogo a todas as construções, exceto um banco. Por volta de 3000 pessoas perderam suas casas.
O primeiro protesto em massa na Nigéria contra a indústria do petróleo ocorreu em Ogoniland. Em 1990, o escritor Ken Saro-Wiwa fundou o Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni (Mosop) organização que representa o povo Ogoni em sua luta por direitos humanos e ambientais na Nigéria. 300.000 membros da comunidade, quase metade da população, marchou em 1993 para denunciar a poluição no delta do Níger pelas grandes companhias petrolíferas estrangeiras. No mesmo ano, a Shell, alegando preocupações com segurança, parou a produção de seus 96 poços em terras Ogoni – embora poços localizados fora da área ainda tivessem dutos atravessando o território. Alarmado pela popularidade de Saro-Wiwa, o governo militar de Sani Abacha acusou-o e a outros oito ativistas de instigar o assassinato de quatro líderes de uma facção rival. Eles foram condenados, em um julgamento considerado uma farsa, e enforcados em 1995.
Ken Saro-Wiwa
Os Ogoni entraram com uma ação judicial contra a Shell, acusando-a de cumplicidade com o regime militar nos enforcamentos dos ativistas. Em 2009, a Shell aceitou pagar 15,5 milhões de dólares (menos de 0,01% do lucro anual da companhia) de indenização para o povo Ogoni, em acordo obtido extrajudicialmente às vésperas do início do julgamento. A companhia, entretanto, se declara inocente das acusações, afirmando que o pagamento foi "um gesto humanitário". (BBC Para África)
Os protestos, hoje, não são freqüentes, e quando ocorrem são respondidos com violência. A reportagem do NYT informa que, no mês de maio, soldados que guardam um local da Exxon Mobil espancaram mulheres que realizavam uma manifestação.
Em outro caso, documentado por jornalistas estrangeiros em 1998, a Chevron enviou tropas de helicóptero durante um protesto pacífico em uma de suas plataformas, em território da comunidade Ilaje. As tropas mataram dois jovens e feriram dezenas de pessoas. Dez anos depois, a Chevron foi à Corte Federal dos Estados Unidos responder pelo episódio. Embora a companhia não tenha sido considerada responsável pelas ações dos militares, não negou ter pago os soldados, fornecido transporte e direcionado-os no dia dos ataques. (The True Cost of Chevron)
A Chevron têm uma longa tradição em contratar pessoas influentes. Segundo postagem no Amautadiarie's Blog, Condoleezza Rice foi, por muito tempo, diretora da companhia, e o advogado recém contratado é advogado do Pentágono, William J. Haynes, que defendeu “técnicas severas de interrogatório” (eufemismo para “tortura”). O General James L. Jones, conselheiro de segurança do presidente Obama, foi membro diretor em 2008, até receber o cargo na Casa Branca.
Uma lista de abusos da Chevron, não somente na Nigéria mas também nas Filipinas, Kazaquistão, Iraque, Angola, Equador, e também nos Estados Unidos e Canadá, é detalhada em um "relatório anual alternativo", preparado por ongs e distribuído a acionistas da Chevron. O relatório está disponível ao público em The True Cost of Chevron (“O Verdadeiro Custo da Chevron”)
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O estado das coisas no Equador é chocante.
Apesar de diversos documentários já terem sido feitos sobre a contaminação (como Justicia Now!, disponível gratuitamente na internet, e o documentário Crude), o assunto ainda é pouco conhecido. Eu não sabia até hoje!
O vídeo abaixo – falado em espanhol e com legendas em inglês – fala sobre a contaminação de petróleo na Amazônia equatoriana
A Texaco começou a extrair petróleo em uma área da Amazônia equatoriana afastada dos centros urbanos na década de 1960. Após 23 anos de operações, havia derramado 64 milhões de litros de petróleo e 68 bilhões de litros de água contaminada e tóxica, segundo a organização ambientalista Amazon Watch.
O documentário Crude, dirigido por Joseph Berlinger, mostra a batalha legal que já dura 17 anos entre a Chevron e 30 mil equatorianos, que alegam que a Texaco, comprada pela Chevron em 2001, derramou nos rios da região 70 bilhões de litros de resíduos tóxicos, deixou 916 fossos com dejetos e queimou milhões de metros cúbicos de gases contaminantes. Os resíduos tóxicos seriam a causa de uma epidemia de doenças, como a leucemia: a demanda vincula 1.401 mortes por câncer na região com a contaminação causada pela Texaco entre 1985 e 1998.
Mas a visão da Chevron é diferente. "Vemos as fotos, vemos a contaminação e não é só nossa", disse o próximo gerente-geral da companhia, John Watson, no auditório da Câmara de Comércio dos Estados Unidos.
Nos anos 90, a Texaco cedeu suas operações à estatal PetroEquador, que continua explorando os poços e admite continuar lançando água suja no meio ambiente. A Chevron diz que testes científicos mostram que a água é segura, que as doenças têm outras causas, que a Texaco limpou sua poluição e que a responsabilidade pelo problema é da companhia estatal.
"Muitas das práticas habituais da Texaco se mantêm, embora a PetroEquador tenha feito mudanças desde a saída dessa empresa para operar com mais responsabilidade", afirmou Luis Yanza, membro da equipe de advogados dos demandantes. "A Texaco desenhou um sistema que contaminou e tem toda a responsabilidade". Outro advogado, Pablo Farjado, diz no documentário que a PetroEquador não é inocente, e sugere que questionar a estatal pode ser o próximo passo.
Em 2002, a Chevron convenceu o juiz norte-americano Jed Rakoff a transferir o caso para tribunais do Equador, país que na época tinha um governo conservador ávido por capitais estrangeiros. A condição foi que a empresa se abstivesse de questionar uma eventual condenação no Equador na justiça dos Estados Unidos. Agora o caso fica cada vez mais emaranhado no Poder Judiciário equatoriano (sob acusações de corrupção, feitas pela Chevron), algo que, segundo os advogados dos queixosos, era a intenção da companhia.
Um estudo concluiu que a Chevron deve pagar US$ 27 bilhões para limpar o meio ambiente e compensar as comunidades afetadas. "Será muito caro limpar, mas ainda assim será bem menos do que o lucro obtido pela empresa no Equador", disse na semana passada outro advogado dos queixosos, Steven Donzinger. As recentes estimativas da dívida da BP pelo desastre no Golfo do México, entretanto, sugerem que os US$27 bilhões são muito pouco.
Em maio, uma decisão da corte americana ordenou que Berlinger entregasse os copiões do documentário à Chevron.
O blog Chevron in Ecuador divulga notícias sobre o caso (11/06/10: homem que denunciou corrupção na Chevron do Equador é ameaçado de morte).
No site ChevronToxico – campanha por justiça no Equador, pode-se ver os efeitos da contaminação na saúde da população e ler notícias e documentos. O site possui também uma petição, a ser enviada a representantes da Chevron. Pode assinar.
E a Chevron não é a única companhia com problemas no Equador... A Petrobrás também é acusada de causar contaminação que levou membros de comunidades indígenas à morte no país. O site Soberania.org noticiou, em 2008, que “crianças das Comunidades de Palo Azul já começaram a morrer devido à contaminação por petróleo extraído pela Petrobras”, que jogaria resíduos nos rios. "Cerca de 70% das crianças das quatro comunidades adquiriu uma doença de pele que certamente é causada pelo benzeno, um dos hidrocarbonetos aromáticos cíclicos do petróleo". "A doença de pele é acompanhada de outros sintomas que tem levado a morte."
Apesar de todos os problemas, a economia do Equador depende da exportação do petróleo, e uma solução parece distante. Porém, segundo o blog Planet Green, uma iniciativa poderia evitar problemas futuros: O Equador apresentou um projeto para deixar intactos os 850 milhões de barris de petróleo existentes no Parque Nacional Yasuní, em troca de financiamentos dos países desenvolvidos. A reserva Yasuní não só tem uma riqueza biológica inestimável, como abriga tribos indígenas que nunca tiveram contato com o homem. O total de áreas protegidas representa nada menos que 38% do território equatoriano. O website da iniciativa, criado pelo governo, incentiva doações de países, organizações e até particulares.
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É vergonhoso como a comunidade internacional não toma conhecimento do que acontece nesses países.
Terisa Turner, coordenadora da ong International Oil Working Group, descreveu a conduta das companhias de petróleo multinacionais no delta do Níger ao longo de décadas como "racismo ambiental". "Essas práticas não são, e nunca poderiam ser, conduzidas na Europa Ocidental ou na América do Norte, e não deveriam ser praticadas em nenhum lugar." (CorpWatch)
Será que, agora que um país rico e que comanda a mídia internacional também está sofrendo as conseqüências da ganância da indústria petrolífera, alguma coisa vai mudar?
Algumas frases que merecem ser repetidas: "Uma das lições que aprendemos com esse derramamento (…) é que não importa o quanto melhorarmos a regulamentação da indústria; a busca por petróleo hoje envolve grandes riscos." "Petróleo é um recurso finito. Nós consumimos mais de 20% do petróleo do mundo, mas temos menos de 2% das reservas." "A tragédia que se desenrola em nosa costa é o mais doloroso e poderoso lembrete até hoje que o tempo de adotar energias limpas é agora." "Há custos associados a essa transição, e há quem acredite que não podemos arcar com esses custos agora. Eu digo que não podemos arcar com não mudar o modo como produzimos e usamos a energia, pois os custos a longo prazo para a nossa economia, segurança nacional e meio ambiente são muito maiores."
Quando estas palavras deixarão de ser palavras?
BP, Chevron, Shell, Petrobrás... Parece que nenhuma empresa petrolífera está limpa. Com perdão do trocadilho. A indústria do petróleo é uma indústria criminosa e precisa assumir responsabilidade por seus atos.
Não podemos mais continuar com este nosso modo de vida! É simples assim. Temos que acordar. Chega de petróleo.
Quinta-feira (27 de maio), as notícias eram otimistas. Parecia que a operação “top kill” da BP, que consistiu em bombear fluidos pesados, lodo e cimento no tubo de onde o petróleo está vazando, estava sendo um sucesso.
Entretanto, no último sábado (29/05), a BP admitiu que a operação fracassou, assim como as anteriores. O plano de instalação de uma cúpula também falhou, devido a cristais de gelo que impediram sua colocação, e a utilização de um tubo para capturar o petróleo que vaza do poço também não funcionou. Neste sábado, a BP também começou a jogar uma mistura de bolas de golfe velhas, pedaços de pneus e cordas no poço de petróleo rompido, tentando entupi-lo.
O vazamento, a 1500m de profundidade, já dura mais de 40 dias e está despejando por volta de 20 mil galões de petróleo no mar diariamente. O presidente Barack Obama prometeu na sexta-feira (29) triplicar o número de pessoas que trabalham nas operações de contenção do vazamento, atualmente em mais de 20 mil civis e 1,4 mil membros da Guarda Nacional.
A nova operação da BP para conter o vazamento, já iniciada, é arriscada. Ela envolve a remoção de um tubo de perfuração quebrado, a instalação de um sifão na válvula existente para conduzir o petróleo para a superfície, e a colocação de uma tampa no poço.
A retirada do tubo poderá provocar um fluxo mais violento de petróleo. Segundo Carol Browner, consultora de energia e mudanças climáticas da Casa Branca, o fluxo de petróleo poderá aumentar em 20% antes que a nova tampa seja colocada sobre o poço.
Os funcionários da BP afirmaram que o procedimento poderia demorar até uma semana para ser realizado, e que não podem garantir que o método, nunca utilizado em profundidades tão grandes, terá sucesso.
Apesar dessa nova tentativa, cresce a impressão de que a maré negra continuará até o mês de agosto, data em que deverão ficar prontas duas tubulações de drenagem que a BP está escavando próximo ao local do vazamento. Browner reconhece que é muito possível que o petróleo "continue saindo do poço até agosto e (até) a construção de poços secundários".
As conseqüências do derramamento de petróleo ainda podem apenas ser imaginadas, mas alguns efeitos já se tornam evidentes.
22 golfinhos e quase 40 tartarugas já foram encontrados mortos na zona de derramamento. Ainda não foi confirmado que a causa das mortes foi o petróleo, mas o próprio Departamento de Pesca dos Estados Unidos lançou um guia sobre os efeitos que o derramamento pode ter sobre mamíferos aquáticos.
Cientistas afirmam ter encontrado pelo menos duas enormes manchas submarinas do que parece ser petróleo, a centenas de metros de profundidade e estendendo-se por quilômetros. A BP nega que haja evidências de manchas submarinas, afirmando que o petróleo sempre tende a flutuar, mas segundo pesquisadores o petróleo dissolveu-se na água, possivelmente como resultado dos dispersantes químicos usados no combate ao derramamento.
Estima-se que mais de 3 milhões de litros de dispersantes já tenham sido despejados nas águas do Golfo do México, e seus efeitos para a vida marinha são desconhecidos. A agência ambiental americana, EPA, exige que a BP mude os produtos químicos que vinham sendo usados.
"Parece que as futuras gerações conhecerão o Golfo como o “Mar Negro”. Marco da incompetência de uma empresa pretensiosa, do descaso com as questões ambientais, e de uma sociedade sedenta pelo lucro e pela exploração criminosa dos recursos naturais", afirma Mikael Freitas, da Campanha de Oceanos do Greenpeace no Brasil.
Como os ecossistemas reagem a desastres com o o do Golfo do México (Revista Época)
Conforme noticiado por todos os jornais, uma plataforma perolífera Deepwater Horizon, da empresa suiça Transocean e operada pela British Petroleum, explodiu no Golfo do México, próximo ao Delta do rio Mississippi, no dia 20 de abril e afundou no dia 22, após ficar dois dias em chamas.
11 trabalhadores morreram, e o acidente provocou um vazamento de petróleo gigantesco.
Até quarta-feira, as estimativas eram de cerca de mil barris de petróleo sendo despejados no mar por dia, mas desde então este número subiu para cinco mil barris, ou 800 mil litros de petróleo.
Porém, esse número pode ser muito maior: estimativas citadas pelo The Wall Street Journal calculam que podem estar vazando 25 mil barris de petróleo por dia!
A mancha de óleo já mede mais de 200km e já atingiu a costa da Louisiana.
Os estados do Alabama, Mississippi, Louisiana e Flórida declararam estado de emergência, e o governo dos Estados Unidos declarou o vazamento, nesta quinta (29/04), uma "catástrofe nacional".
A causa da explosão ainda é desconhecida. De acordo com o Último Segundo, um documento anônimo em inglês atribui o desastre a uma falha técnica (óleo ou gás teriam entrado no revestimento da tubulação) associada a erro humano (a tripulação teria demorado para acionar os dispositivos de segurança).
De qualquer forma, o aparelho responsável por cortar o fluxo de petróleo também não funcionou como deveria, e com a destruição da plataforma o oleoduto ligado a ela ficou vazando petróleo.
Até o momento, os esforços para conter o impacto têm sido insuficientes.
Foram utilizados robôs submarinos para tentar fechar os focos de vazamento no oleoduto, sem sucesso. A Guarda Costeira instalou barreiras para tentar impedir que o petróleo chegue à costa, e queimas estão sendo realizadas desde quarta-feira para tentar conter a mancha. As despesas com a limpeza da mancha de óleo estão estimadas em US$ 6 milhões por dia.
A British Petroleum está construindo uma estrutura para conter o vazamento, uma espécie de cúpula gigante (isso me lembra Os Simpsons...). O petróleo se acumularia dentro dela, e seria bombeado para fora, evitando mais vazamento no mar. Hoje, representantes da empresa afirmaram que a estrutura deve estar pronta dentro de uma semana.
Segundo o governo americano, uma solução definitiva deve levar meses.
Enquanto isso, a maré negra continua se espalhando e pode se tornar o pior desastre ecológico da história do país.
Cerca de 40% dos pântanos costeiros do país ficam na região, e esse tipo de ecossistema é muito rico e, por ser relativamente seguro, serve como “berçário” de muitas espécies animais. Uma contaminação por petróleo é mais difícil de ser contida neste ambiente, devido às características da água e do solo e ao emaranhado de vegetação. Também torna-se mais difícil o resgate de animais.
De acordo com o Greenpeace, o mês de abril é temporada de reprodução de peixes, pássaros, tartarugas e outras criaturas marinhas no Golfo do México. “Segundo afirmam pesquisadores, 90% de todas as espécies marinhas do Golfo do México fazem uso das regiões costeiras e dos estuários do Rio Mississipi ao menos uma vez na vida para reprodução”.
Mais de cinco mil espécies de aves migratórias, muitas delas em perigo de extinção, passam pela costa da Louisiana. O Golfo também abriga lontras, tubarões e baleias, como a Cachalote e a Baleia Azul, o maior animal que já existiu no planeta.
Os impactos a curto prazo de um vazamento de petróleo são inúmeros, e os danos ambientais podem ser sentidos durante muito tempo. A região do Alasca que foi afetada em 1989 pelo petroleiro da Exxon Valdez ainda não se recuperou totalmente.
O óleo é hidrofóbico – não se mistura com a água. Por ser menos denso, ele flutua, formando uma camada que bloqueia a penetração da luz solar, impedindo a fotossíntese das algas e fitoplâncton, que são a base da cadeia alimentar dos oceanos.
Os oceanos são a maior fonte de oxigênio para a nossa atmosfera.
A Amazônia é um ecossistema muito importante, mas não é o pulmão do mundo. Estima-se que cerca de 90% do oxigênio presente na atmosfera terrestre seja gerado pela fotossíntese das algas planctônicas.
Por isso, o impacto de desastres ecológicos no oceano pode ser muito maior do que você imagina!
O petróleo também pode obstruir as brânquias dos peixes e os orifícios respiratórios de outros animais marinhos, como tartarugas e golfinhos, impedindo-os de respirar.
Ele se gruda às penas das aves marinhas, tornando-as permeáveis à água e atrapalhando a manutenção do calor corporal, e impedindo as aves de voar. Muitas aves morrem por sufocamento ou hipotermia.
Além disso, a ingestão do óleo tem diversos efeitos tóxicos e pode ser letal. As aves ingerem o petróleo ao tentar limpar suas penas ou ingerir alimento, mas comer alimentos contaminados também pode causar danos à saúde a longo prazo, inclusive em seres humanos.
A decomposição de algas e animais mortos diminui ainda mais o oxigênio na água.
A queima da mancha de petróleo provocará seus próprios problemas ambientais, criando enormes nuvens de fumaça tóxica e deixando resíduos no mar.
Voluntário segura uma ave coberta de óleo derramado do navio Prestige, na costa da Galícia, Espanha (Greenpeace).
Em "O custo da energia", fotos da National Geographic Brasil mostram como "paisagens e vidas humanas sofrem com a busca febril por mais combustível"
É impressionante como, apesar de toda a tecnologia que temos para a exploração de petróleo, estamos tão despreparados para lidar com um acidente como este.
Nesses momentos de calamidade nos damos conta de como a nossa relação com os recursos que exploramos é doentia.
Toda a discussão sobre o aquecimento global e o nosso impacto no ambiente não são suficientes para mudarmos de atitude!
Até quando?
Além das atitudes que já deveríamos adotar em nosso dia-a-dia, como reduzir o consumo de combustível, é preciso maior atenção e incentivo a fontes de energia mais limpas e renováveis.
Alguém conhece o Portal das Energias Renováveis? Me deparei com ele hoje, pareceu bem interessante.
E também me deparei com um livro que parece ser leitura básica para entender o mundo: A Tirania do Petróleo. Quero ler!
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