A Lídia, no blog Ecos na Sala, também escreveu sobre este assunto.
Dia 25 foi o primeiro aniversário da morte de Michael Jackson.
Eu lembro do dia em que recebi a notícia. Estava em um congresso, fazendo plantão junto ao meu painel, quando um amigo me falou. A notícia correu como um rastro de pólvora e em instantes todos estavam sabendo.
No meio do circo que armaram em torno da morte dele, que me lembra a canção Candle in the Wind que Elton John fez para Marilyn Monroe ("even when you died all the press still haunted you"...), a minha sensação era estranha.
Porque, para ser sincera, as músicas que eu conheço dele são (relativamente) antigas. Eu o admirava muito, mas acho que admirava o Michael dos anos 80.
Isso não quer dizer que não tenha sentido muito pela sua morte. Senti, e ainda sinto, muita tristeza.
Ele era um artista fantástico.
Suas músicas ainda soam novas, seus clipes (Billie Jean, Thriller, Black or White...) ainda constam dentre os melhores clipes do mundo, e ainda me arrepio toda ao ver gravações suas ao vivo.
Como a música abaixo, Smooth Criminal:
Pouco depois da morte de Michael, eu li uma postagem no Mindprints que gostaria de partilhar, porque me identifiquei muito com ela. Especialmente o modo como o autor, Marcio K, fala da sua relação com música ao longo da vida.
Mesmo eu tendo nascido alguns anos depois dele, e tendo conhecido Michael quando ele já era o Rei do Pop há muito tempo, minha relação com a música foi semelhante.
Me lembro de como comprar CDs e assistir MTV eram obsessões, no começo da adolescência. Quando eu tinha uns 13, 14 anos, CDs não eram tão caros quanto agora (custavam uns R$18), e eu e minhas amigas baseávamos o preço das coisas em quantos CDs poderíamos comprar com aquele dinheiro ("Que absurdo! Essa calça custa uns cinco CDs!").
E eu sentava com minhas amigas para ouvir música e conversar... eu escrevia e traduzia letras de música para outras pessoas, e nós discutíamos as letras das músicas, e falávamos de música, filmes, livros, escola, garotos, artistas, política, futuro... Esses momentos foram uma parte muito importante do nosso crescimento.
Michael, no entanto, não participou muito desses momentos. Ele estava mais no fundo... mas sempre presente.
Acreditem ou não, o CD duplo HIStory foi um dos primeiros CDs que comprei na minha vida. Acho que eu tinha oito anos. Não me lembro a ordem, mas sei que os quatro primeiros CDs que comprei foram: Nove Luas dos Paralamas do Sucesso (que ouvi muito mas depois enjoei e dei para uma amiga), um de Sandy & Júnior (eu tinha oito anos, vai! Já sumiu faz tempo!), um com "os grandes sucessos de Raul Seixas" (esse eu ainda ouço e amo) e o HIStory.
Até recentemente, eu colocava o CD mais para dançar, não prestava muita atenção às músicas.
Com exceção de Man in the Mirror, que sempre achei linda:
É realmente uma pena termos perdido este grande talento.
Mas é maravilhoso que ele tenha existido e trazido tantas coisas boas!
Sua música não vai morrer, nunca!
Eu vou aprender a tocar guitarra e tocar Beat It, esperem para ver!
Beat It, ao vivo em Munique em 1997 (turnê HIStory), com a fodástica Jennifer Batten na guitarra:
Na verdade, Michael não morreu.
Ele só voltou para o planeta dele.
Em meio a toda a comoção causada pelo derramamento de petróleo no Golfo do México – que começou em 20 de abril e ainda continua (veja vídeo ao vivo nesta outra postagem) – uma reportagem publicada no New York Times no dia 16 de junho relata a situação no Delta do Níger, sul da Nigéria, onde grandes vazamentos de petróleo ocorrem há 50 anos. Mais de 2 bilhões de litros já vazaram no Delta do Níger, o equivalente a um derramamento do navio Exxon Valdez (de 41 milhões de litros) por ano. O petróleo vaza quase todas as semanas, e alguns pântanos há muito tempo não têm mais vida.
Segundo reportagem da National Geographic, de 2007, relatórios da ONU identificaram diversas estratégias questionáveis empregadas na Nigéria pelas petrolíferas, incluindo: pagar chefes das comunidades pelo direito à exploração; construir estradas ou canais sem estudos de impacto ambiental; arrastar processos por anos nos tribunais; enviar forças de segurança para acabar violentamente com protestos; não limpar o local após vazamentos de óleo. As companhias também praticam a queima do gás que sai do solo quando o petróleo é extraído, uma prática, teoricamente, ilegal, tanto na Nigéria quanto nos Estados Unidos. Pessoas moram, literalmente, ao lado de chamas ao nível do solo e do tamanho de prédios, que queimam 24hs por dia, algumas há 40 anos.
A Nigéria é o país mais populoso da África, com 130 milhões de pessoas. O país produziu mais de 2 milhões de barris de petróleo por dia no ano passado. O petróleo representa 95% das exportações e 80% dos lucros do país. Ironicamente, como as refinarias estão sempre quebrando, a Nigéria precisa importar seu combustível.
Quando a exploração do petróleo começou, na vila de Oloibiri, a Nigéria ainda era uma colônia britânica. O país só se tornou independente em 1960. Em 1966, dois golpes sucessivos por diferentes grupos militares deixaram o país sob uma ditadura militar. Uma nova constituição foi promulgada em 1977, e eleições foram realizadas em 1979, sendo ganhas por Shehu Shagari. Porém, em 1983, um novo golpe inicia mais uma ditadura militar, que só terminaria em 1999. (fonte: Wikipedia)
A a indústria do petróleo foi nacionalizada em 1971. O Estado, em nome da Nigerian National Petroleum Corporation, recebe 55% dos lucros das operações das multinacionais em terra. Embora, nesse meio tempo, o governo tenha passado de ditadura militar a democracia (duas vezes), uma coisa não mudou: a corrupção. Apesar da região contribuir com cerca de 80% da receita do governo, a população do delta do Níger é muito pobre e a expectativa de vida é a menor do país.
Port Harcourt, a principal cidade da região do petróleo. Fotografia de Ed Kashi (National Geographic)
O governo documentou 6.817 derramamentos de petróleo entre 1976 e 2001 – praticamente um por dia por 25 anos – mas analistas suspeitam que o número pode ser dez vezes maior. (National Geographic) Os vazamentos são causados por dutos velhos e enferrujados, nunca fiscalizados devido a uma regulamentação ineficiente ou corrupta, e afetados por manutenção deficiente e sabotagens.
As companhias culpam sabotagens e roubos pelos vazamentos, especulando que membros da comunidade causam derramamentos deliberadamente para receber compensações. Caroline Wittgenstein, porta-voz da Shell (responsável pela metade da produção do país) em Lagos, disse: "Nós não discutimos vazamento individuais", mas argumentou que a "vasta maioria" é causada por sabotagem ou roubo, com apenas 2% devido à falha de equipamento ou erro humano.
Mas muitos especialistas e autoridades locais dizem que as empresas atribuem excessiva culpa à sabotagem, para diminuir sua responsabilidade. Ricardo Steiner, consultor de vazamentos de petróleo, concluiu num relatório de 2008 que, historicamente, "o índice de falhas nos oleodutos na Nigéria é muitas vezes maior que aquele encontrado em outras partes do mundo", e observou que mesmo a Shell reconheceu que "quase todos os anos" um vazamento pode ser ligado a um oleoduto corroído.
E não é somente o ambiente que sofre com a poluição. Em 1999. cidadãos da comunidade de Erovie começaram a ter problemas de saúde (vômitos, tonturas, dores de estômago e tosse) pouco depois que a Shell jogou um milhão de litros de resíduos em um poço de petróleo abandonado. Dentro de dois meses, 93 pessoas haviam morrido da doença misteriosa.
Testes feitos independentemente por duas universidades da Nigéria e três outros laboratórios, conduzidos no ano seguinte, indicaram que a substância despejada era tóxica. Todos os testes confirmaram concentrações muito acima dos limites aceitáveis de chumbo, zinco e mercúrio, que provavelmente contaminaram o solo e a água da região. A Shell e o governo da Nigéria se recusam a se responsabilizar, afirmando que a substância despejada é inofensiva. (leia mais no site CorpWatch)
(Gente, acho que já vi esse filme... Cadê a Erin Brockovich para defender as pessoas e o ambiente, quando o descaso acontece longe dos subúrbios americanos?)
A reportagem da National Geographic discute as repercussões sociais da exploração de petróleo na Nigéria. As companhias multinacionais não contratam funcionários dentre a população local. Membros das comunidades, que viviam basicamente da pesca, não têm mais fonte de renda nem alimento.
Em Oloibiri, cuja população baixou de 10.000 a menos de 1.000 pessoas nos últimos 30 anos, o chefe Osobere Inengit pede aos estrangeiros para enviar uma mensagem à Shell. "Diga a eles para nos ajudar. Diga a eles para treinar 50 garotos e garotas do local para empregos." E suspira: "se nunca tivéssemos visto petróleo, estaríamos muito melhor".
Esse descaso social leva pessoas sem perspectivas a atos desesperados. Atos de vandalismo e violência contra funcionários das multinacionais se tornam cada vez mais freqüentes, e seqüestros pelo dinheiro do resgate já se tornaram uma fonte de renda para algumas pessoas.
Militantes de grupos armados, como o MEND (movimento pela emancipação do delta do Niger), matam soldados e seguranças, seqüestram trabalhadores estrangeiros das companhias petrolíferas, sabotam poços e oleodutos e, em ocasião de uma visita de executivos chineses da indústria do petróleo, explodiram diversos carros-bomba na cidade de Warri.
Membros do grupo armado MEND Fotografia de Ed Kashi (National Geographic)
O governo da Nigéria responde a esses ataques com devastação. Em uma tarde, uma gangue em Port Harcourt seqüestrou um empreiteiro italiano que trabalhava para a companhia petrolífera Saipem. Durante o seqüestro, um soldado foi morto. Dentro de poucas horas, tropas invadiram uma favela e atearam fogo a todas as construções, exceto um banco. Por volta de 3000 pessoas perderam suas casas.
O primeiro protesto em massa na Nigéria contra a indústria do petróleo ocorreu em Ogoniland. Em 1990, o escritor Ken Saro-Wiwa fundou o Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni (Mosop) organização que representa o povo Ogoni em sua luta por direitos humanos e ambientais na Nigéria. 300.000 membros da comunidade, quase metade da população, marchou em 1993 para denunciar a poluição no delta do Níger pelas grandes companhias petrolíferas estrangeiras. No mesmo ano, a Shell, alegando preocupações com segurança, parou a produção de seus 96 poços em terras Ogoni – embora poços localizados fora da área ainda tivessem dutos atravessando o território. Alarmado pela popularidade de Saro-Wiwa, o governo militar de Sani Abacha acusou-o e a outros oito ativistas de instigar o assassinato de quatro líderes de uma facção rival. Eles foram condenados, em um julgamento considerado uma farsa, e enforcados em 1995.
Ken Saro-Wiwa
Os Ogoni entraram com uma ação judicial contra a Shell, acusando-a de cumplicidade com o regime militar nos enforcamentos dos ativistas. Em 2009, a Shell aceitou pagar 15,5 milhões de dólares (menos de 0,01% do lucro anual da companhia) de indenização para o povo Ogoni, em acordo obtido extrajudicialmente às vésperas do início do julgamento. A companhia, entretanto, se declara inocente das acusações, afirmando que o pagamento foi "um gesto humanitário". (BBC Para África)
Os protestos, hoje, não são freqüentes, e quando ocorrem são respondidos com violência. A reportagem do NYT informa que, no mês de maio, soldados que guardam um local da Exxon Mobil espancaram mulheres que realizavam uma manifestação.
Em outro caso, documentado por jornalistas estrangeiros em 1998, a Chevron enviou tropas de helicóptero durante um protesto pacífico em uma de suas plataformas, em território da comunidade Ilaje. As tropas mataram dois jovens e feriram dezenas de pessoas. Dez anos depois, a Chevron foi à Corte Federal dos Estados Unidos responder pelo episódio. Embora a companhia não tenha sido considerada responsável pelas ações dos militares, não negou ter pago os soldados, fornecido transporte e direcionado-os no dia dos ataques. (The True Cost of Chevron)
A Chevron têm uma longa tradição em contratar pessoas influentes. Segundo postagem no Amautadiarie's Blog, Condoleezza Rice foi, por muito tempo, diretora da companhia, e o advogado recém contratado é advogado do Pentágono, William J. Haynes, que defendeu “técnicas severas de interrogatório” (eufemismo para “tortura”). O General James L. Jones, conselheiro de segurança do presidente Obama, foi membro diretor em 2008, até receber o cargo na Casa Branca.
Uma lista de abusos da Chevron, não somente na Nigéria mas também nas Filipinas, Kazaquistão, Iraque, Angola, Equador, e também nos Estados Unidos e Canadá, é detalhada em um "relatório anual alternativo", preparado por ongs e distribuído a acionistas da Chevron. O relatório está disponível ao público em The True Cost of Chevron (“O Verdadeiro Custo da Chevron”)
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O estado das coisas no Equador é chocante.
Apesar de diversos documentários já terem sido feitos sobre a contaminação (como Justicia Now!, disponível gratuitamente na internet, e o documentário Crude), o assunto ainda é pouco conhecido. Eu não sabia até hoje!
O vídeo abaixo – falado em espanhol e com legendas em inglês – fala sobre a contaminação de petróleo na Amazônia equatoriana
A Texaco começou a extrair petróleo em uma área da Amazônia equatoriana afastada dos centros urbanos na década de 1960. Após 23 anos de operações, havia derramado 64 milhões de litros de petróleo e 68 bilhões de litros de água contaminada e tóxica, segundo a organização ambientalista Amazon Watch.
O documentário Crude, dirigido por Joseph Berlinger, mostra a batalha legal que já dura 17 anos entre a Chevron e 30 mil equatorianos, que alegam que a Texaco, comprada pela Chevron em 2001, derramou nos rios da região 70 bilhões de litros de resíduos tóxicos, deixou 916 fossos com dejetos e queimou milhões de metros cúbicos de gases contaminantes. Os resíduos tóxicos seriam a causa de uma epidemia de doenças, como a leucemia: a demanda vincula 1.401 mortes por câncer na região com a contaminação causada pela Texaco entre 1985 e 1998.
Mas a visão da Chevron é diferente. "Vemos as fotos, vemos a contaminação e não é só nossa", disse o próximo gerente-geral da companhia, John Watson, no auditório da Câmara de Comércio dos Estados Unidos.
Nos anos 90, a Texaco cedeu suas operações à estatal PetroEquador, que continua explorando os poços e admite continuar lançando água suja no meio ambiente. A Chevron diz que testes científicos mostram que a água é segura, que as doenças têm outras causas, que a Texaco limpou sua poluição e que a responsabilidade pelo problema é da companhia estatal.
"Muitas das práticas habituais da Texaco se mantêm, embora a PetroEquador tenha feito mudanças desde a saída dessa empresa para operar com mais responsabilidade", afirmou Luis Yanza, membro da equipe de advogados dos demandantes. "A Texaco desenhou um sistema que contaminou e tem toda a responsabilidade". Outro advogado, Pablo Farjado, diz no documentário que a PetroEquador não é inocente, e sugere que questionar a estatal pode ser o próximo passo.
Em 2002, a Chevron convenceu o juiz norte-americano Jed Rakoff a transferir o caso para tribunais do Equador, país que na época tinha um governo conservador ávido por capitais estrangeiros. A condição foi que a empresa se abstivesse de questionar uma eventual condenação no Equador na justiça dos Estados Unidos. Agora o caso fica cada vez mais emaranhado no Poder Judiciário equatoriano (sob acusações de corrupção, feitas pela Chevron), algo que, segundo os advogados dos queixosos, era a intenção da companhia.
Um estudo concluiu que a Chevron deve pagar US$ 27 bilhões para limpar o meio ambiente e compensar as comunidades afetadas. "Será muito caro limpar, mas ainda assim será bem menos do que o lucro obtido pela empresa no Equador", disse na semana passada outro advogado dos queixosos, Steven Donzinger. As recentes estimativas da dívida da BP pelo desastre no Golfo do México, entretanto, sugerem que os US$27 bilhões são muito pouco.
Em maio, uma decisão da corte americana ordenou que Berlinger entregasse os copiões do documentário à Chevron.
O blog Chevron in Ecuador divulga notícias sobre o caso (11/06/10: homem que denunciou corrupção na Chevron do Equador é ameaçado de morte).
No site ChevronToxico – campanha por justiça no Equador, pode-se ver os efeitos da contaminação na saúde da população e ler notícias e documentos. O site possui também uma petição, a ser enviada a representantes da Chevron. Pode assinar.
E a Chevron não é a única companhia com problemas no Equador... A Petrobrás também é acusada de causar contaminação que levou membros de comunidades indígenas à morte no país. O site Soberania.org noticiou, em 2008, que “crianças das Comunidades de Palo Azul já começaram a morrer devido à contaminação por petróleo extraído pela Petrobras”, que jogaria resíduos nos rios. "Cerca de 70% das crianças das quatro comunidades adquiriu uma doença de pele que certamente é causada pelo benzeno, um dos hidrocarbonetos aromáticos cíclicos do petróleo". "A doença de pele é acompanhada de outros sintomas que tem levado a morte."
Apesar de todos os problemas, a economia do Equador depende da exportação do petróleo, e uma solução parece distante. Porém, segundo o blog Planet Green, uma iniciativa poderia evitar problemas futuros: O Equador apresentou um projeto para deixar intactos os 850 milhões de barris de petróleo existentes no Parque Nacional Yasuní, em troca de financiamentos dos países desenvolvidos. A reserva Yasuní não só tem uma riqueza biológica inestimável, como abriga tribos indígenas que nunca tiveram contato com o homem. O total de áreas protegidas representa nada menos que 38% do território equatoriano. O website da iniciativa, criado pelo governo, incentiva doações de países, organizações e até particulares.
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É vergonhoso como a comunidade internacional não toma conhecimento do que acontece nesses países.
Terisa Turner, coordenadora da ong International Oil Working Group, descreveu a conduta das companhias de petróleo multinacionais no delta do Níger ao longo de décadas como "racismo ambiental". "Essas práticas não são, e nunca poderiam ser, conduzidas na Europa Ocidental ou na América do Norte, e não deveriam ser praticadas em nenhum lugar." (CorpWatch)
Será que, agora que um país rico e que comanda a mídia internacional também está sofrendo as conseqüências da ganância da indústria petrolífera, alguma coisa vai mudar?
Algumas frases que merecem ser repetidas: "Uma das lições que aprendemos com esse derramamento (…) é que não importa o quanto melhorarmos a regulamentação da indústria; a busca por petróleo hoje envolve grandes riscos." "Petróleo é um recurso finito. Nós consumimos mais de 20% do petróleo do mundo, mas temos menos de 2% das reservas." "A tragédia que se desenrola em nosa costa é o mais doloroso e poderoso lembrete até hoje que o tempo de adotar energias limpas é agora." "Há custos associados a essa transição, e há quem acredite que não podemos arcar com esses custos agora. Eu digo que não podemos arcar com não mudar o modo como produzimos e usamos a energia, pois os custos a longo prazo para a nossa economia, segurança nacional e meio ambiente são muito maiores."
Quando estas palavras deixarão de ser palavras?
BP, Chevron, Shell, Petrobrás... Parece que nenhuma empresa petrolífera está limpa. Com perdão do trocadilho. A indústria do petróleo é uma indústria criminosa e precisa assumir responsabilidade por seus atos.
Não podemos mais continuar com este nosso modo de vida! É simples assim. Temos que acordar. Chega de petróleo.
A Comissão Baleeira Internacional está reunida esta semana em Agadir, no Marrocos. Sofrendo pressão de ambientalistas, de um lado, e de países que caçam baleias (Japão, Islândia e Noruega), de outro, e em meio a acusações de corrupção, a reunião pode ser decisiva para o futuro desses animais.
Uma proposta que abre um precedente perigoso está sendo seriamente considerada: acabar com a moratória à caça, em vigor desde 1986, autorizando a caça comercial aos três países, pelos próximos dez anos. Defensores da proposta afirmam que liberar a caça e definir cotas anuais poderia, ao contrário do que se supõe, reduzir o número de baleias mortas anualmente. Se um acordo entre os dois lados não for alcançado, o Japão ameaça sair da Comissão Baleeira Internacional.
A moratória não proibe todo e qualquer tipo de caça. Ela permite que povos que caçam de forma tradicional (de forma não predatória) como parte de sua cultura mantenha a prática, e também permite que se mate um determinado número de baleias para "fins científicos" (cláusula da qual o Japão se aproveita para matar milhares de baleias todos os anos - e que precisa de regulamentação para definir quais "fins científicos" são justificáveis e quais não são).
Como pode uma cultura que considera normal matar e comer vacas condenar a caça de baleias pelo povo japonês? Ou, nas palavras de Ian Moore em um comentário à coluna no site da BBC News "Whales and dolphins - 'resource' or 'right'?" (de Margi Prideaux), "o que acharíamos se hindus começassem a usar ações diretas para nos impedir de continuar comendo bife"?
(aqui eu preciso abrir parênteses e dizer que, no mínimo, tanto as baleias quanto as vacas deveriam ser tratados com respeito e "humanamente", o que não acontece... e acrescento que diminuir o consumo de carne bovina não é bom somente para os bois e vacas, mas é bom também para a sua saúde e para a saúde do planeta)
Não podemos defender as baleias apenas com argumentos de que elas são lindas e majestosas, pois isso é relativo. E apelar para o valor da vida cai no embate acima: se você defende as baleias mas não é vegetariano, você é um hipócrita.
O texto de Margi Prideaux usa como argumento contra a caça as inúmeras pesquisas científicas que vêm demonstrando que cetáceos (baleias e golfinhos) têm capacidades cognitivas (vulgo "inteligência") impressionantes e incrivelmente semelhantes às nossas (o que é ainda mais espantoso, porque eles vivem em um ambiente muito diferente do nosso e nossas linhagens evolutivas divergiram a muitos milhões de anos. Com base nisto, Prideaux acredita que os cetáceos merecem ser tratados de modo diferenciado dos outros animais - com maior respeito.
Fazem falta, no texto, referências a alguns trabalhos científicos. Dentre os comentários, havia quem duvidasse das afirmações da autora. Existem muitos artigos, alguns disponíveis online gratuitamente. Golfinhos e baleias são, mesmo, muito "inteligentes".
Claro, suas capacidades são bem diferentes das nossas em muitos aspectos. Por exemplo, algumas espécies são capazes de "enxergar" utilizando o som ("sonar"), o que é muito útil quando se vive na água e a luz nem sempre está presente ou a visão não é muito confiável. Cetáceos também não dormem como nós, mas descansam partes do cérebro alternadamente, o que também é útil quando se tem que subir à superfície da água para respirar.
Mas os cetáceos também fazem coisas que poucos animais, além de nós, podem fazer, ou ainda que pensávamos ser exclusivamente humanas. Golfinhos, por exemplo, vivem em sociedades muito complexas (talvez só comparáveis às nossas, em termos das exigências cognitivas para a vida nestas sociedades); se reconhecem no espelho (ver artigo de Reiss & Marino, 2001 - disponível gratuitamente e com fotos e vídeos!); algumas espécies possuem sons únicos associados a cada indivíduo ("assobios-assinatura"); compreendem gestos referenciais ("apontar") feitos por humanos e apontam objetos para humanos espontaneamente (sem treinamento) (Xitco et al., 2001 - artigo também gratuito e com muitas fotos); são capazes de imitar sons e movimentos corporais; e talvez sejam capazes de ensinar ativamente seus filhotes (conforme descrito no artigo muito legal de Bender et al., 2009, com vídeos e tudo - disponível aqui, mas é preciso pagar para acessar, infelizmente).
Golfinho nariz-de-garrafa imita gestos humanos - imagens do site do Dolphin Institute, de pesquisas com golfinhos
Para quem acredita que tamanho é documento, os golfinhos possuem o segundo maior tamanho de cérebro em relação ao corpo (perdendo só para os humanos, mas ganhando dos chimpanzés), e o maior número de circunvoluções ("dobras" - mais do que nós!).
E tanto golfinhos quanto baleias transmitem comportamentos socialmente - e esses comportamentos se modificam ao longo do tempo e variam entre diferentes populações, podendo-se dizer (a depender da definição que se dá à palavra) que esses aimais possuem "cultura". Por exemplo, o canto da baleia jubarte modifica-se pouco a pouco ao longo dos anos e varia entre diferentes populações, e se um indivíduo imigrar para uma nova população é possível que os residentes imitem seu canto. E grupos de orcas ("pods") em Vancouver, Canadá, podem ser diferenciados pelo seu conjunto de vocalizações (que os pesquisadores chamam de "dialetos"). (veja o site da pesquisa com as orcas em Vancouver)
Tudo isso é fascinante, mas será que é motivo suficiente para proteger esses animais? Isso implica discussões éticas e morais profundas... quão "inteligente" um animal precisa ser para ter direito à vida?
O melhor argumento contra a caça é que baleias e golfinhos correm, sim, seríssimo risco de extinção, e a taxa de reprodução deles é muito baixa, de modo que indivíduos mortos dificilmente são repostos e a população declina rápido. Apesar da "proibição", a caça mata aproximadamente 2 mil baleias por ano, incluindo espécies à beira da extinção como a baleia azul (Balaenoptera musculus, o maior animal que já existiu na Terra), a cinzenta (Eschrichtius robustus), a franca do norte (Eubalaena glacialis) e a bowhead, ou cabeça-redonda (Balaena mysticetus). Só o Japão caça mais de mil baleias por ano, e nos territórios que foram declarados santuários de baleias em 1994 pela sua importância para a conservação desses animais, nos oceanos Índico e Austral.
E ninguém jamais menciona que, além da caça, a sobrevivência das baleias também é ameaçada pelas mudanças climáticas, pelas contaminações (dúzias de golfinhos já foram encontrados mortos em decorrência do vazamento de petróleo no Golfo do México!), pelo desequilíbrio ambiental e escassez de alimento, pelas capturas acidentais e pela poluição sonora dos oceanos.
Além disso, os animais demoram para morrer, são esquartejados vivos, e certamente sofrem muito - tanto os animais que são mortos quanto os que sobrevivem. E isso é o mais difícil de aceitar. O sofrimento de qualquer pessoa ou animal deve ser evitado a todo custo!
Ontem (segunda-feira), foi distribuído na reunião um relatório sobre a situação das baleias, para guiar as decisões da Comissão. Segundo o relatório, seria permitido matar até 3.860 baleias até 2014 (uma redução de apenas 8% em relação às capturas atuais). Porém, muitos pesquisadores discordam dessa afirmação. Vincent Ridoux, delegado científico francês em Agadir, afirmou que essas cifras são "resultado mais de negociações políticas que de trabalhos científicos". E mais, "três quartos das delegações não têm pessoal científico, e então apenas abordam o tema do ponto de vista político". ["Acusada de seguir interesses políticos, Comissão Baleeira busca acordo"(Google Notícias)]
É, parece que as perspectivas não são muito boas para as baleias.
Como o presidente da CBI está ausente por motivo de doença, a reunião será presidida por Anthony Liverpool, vice-presidente, de Antígua e Barbuda. Ilha do Caribe que, tradicionalmente, vota a favor do Japão. Segundo reportagem do jornal britânico Sunday Times, a fatura de hotel de Liverpool em Agadir está sendo paga por um empresário japonês. Pior: ainda de acordo com a reportagem, representantes africanos e caribenhos admitiram ter votado a favor da caça, após terem recebido promessas de ajuda, dinheiro e prostitutas do Japão. ["Comissão Baleeira busca equilíbrio entre o comércio e a proteção" (Google Notícias)]
Carne de baleia não é um recurso que faz falta a ninguém, e sim uma iguaria que pouquíssimas pessoas nos países que defendem a caça consomem. Os únicos motivos por trás dessa defesa da permissão à caça são o lucro de poucos, colocado acima de tudo, e uma afirmação de poder político e não-submissão aos interesses "estrangeiros". É, principalmente, uma questão de "orgulho" por parte dos japoneses.
Há muito tempo que as ações de um país ultrapassaram as fronteiras internacionais. O que o Japão faz ou deixa de fazer tem repercussão no mundo inteiro. O ar é de todos. O oceano é de todos.
É fato que a moratória à caça não está funcionando. Mas o raciocínio de permitir a caça para diminui-la é, no mínimo, perigoso... Esta reunião está indo na contramão dos esforços globais para a conservação do planeta. É preciso avançar, e não retorceder!
A questão é polêmica. Eu assinei o abaixo-assinado no Avaaz e no site do Greenpeace, e peço que você assine também!
Sugiro a leitura do livro "Uma Baleia Para Matar", de Farley Mowat (editora Veredas).
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