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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ilusão ou realidade?

Muita gente ri da "teoria da conspiração" de uma imprensa golpista brasileira, dizendo que é alucinação de esquerdistas que querem "censurar" críticas ao governo.

Internautas utilizam o termo "PIG", de "Partido da Imprensa Golpista", para referir-se a meios de comunicação que deixam sua suposta função de informar o público em segundo plano para propagar uma ideologia conservadora e de extrema direita, ainda que para isso distorça ou fraude informações.
Segundo a Wikipedia, o termo PIG foi popularizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim em seu blog Conversa Afiada. Amorim escreve o termo com um i minúsculo, em alusão ao portal iG, do qual foi demitido 2008, no que descreve como um processo de "limpeza ideológica".

Teorias da conspiração à parte, vale a pena dar uma olhada no que alguns dos veículos de maior circulação ou audiência estão divulgando.
Não tenho como não concordar com Amorim, quando ele afima que esses veículos, "com o discurso de jornalismo objetivo, fazem o trabalho não de imprensa que omite; mas que mente, deforma e frauda".

No início do mês, repercutiu a notícia da demissão da psicanalista Maria Rita Kehl, após ela publicar um artigo no qual refuta algumas denúncias infundadas que vêm sendo propagadas na internet.
E a oposição insiste em acusar Dilma e Lula de querer censurar a imprensa.
A imprensa já faz isso sozinha!

Dia 19 de outubro a Folha, um dos jornais de maior circulação no país, publicou na primeira página a manhete "Estatais bancam revista pró-PT". Na reportagem, o jornal "denuncia" que a edição deste mês da Revista do Brasil, vinculada à CUT, "teve anúncios pagos por Petrobras e Banco do Brasil".
Como se anunciar em uma revista fosse crime! Por acaso o BB e a Petrobras não anunciam também em imprensa pró-Serra, como a Veja e a própria Folha? Quero ver a manchete "Estatais bancam revista pró-PSDB" com o mesmo destaque!

Quanto será que gastou o governo de José Serra com propaganda, publicada em jornais e revistas, transmitida pela televisão, e espalhada pelas ruas?
Resposta: R$ 311 milhões, só no ano de 2009. O governo de Serra gastou mais com propaganda do que com programas sociais! São Paulo é o estado brasileiro que mais gasta com propaganda oficial, e esses gastos cresceram quase 700% desde que Serra assumiu o governo.
Só com propaganda da CPTM: os recursos gastos com propaganda saltaram de R$ 15 mil, em 2006, para R$ 48 milhões, em 2009. Cerca de 310 mil por cento a mais. E quanto foi gasto com a compra de novos trens? Em 2009, não passaram de R$ 19 milhões.

A mesma Folha publicou, na primeira página da edição de 5 de abril, uma ficha falsa de Dilma, que, segundo afirmaram mais tarde, havia sido recebida por e-mail e foi publicada como sendo do arquivo do Dops. Seis meses depois, a mesma ficha falsa pode ser vista colada em postes na periferia de São Paulo.

Esse mesmo ilustríssimo jornal está conduzindo uma ação judicial para obter acesso à íntegra do processo contra Dilma durante a ditadura.
Em editorial, a Folha defendeu seu interesse com as seguintes palavras:
"É da essência republicana que a biografia de um candidato se exponha ao exame até mesmo impiedoso da opinião pública. Trata-se, afinal, de alguém que pretende assumir o comando do país."
Concordo totalmente. A Folha tem que publicar, então, os autos do processo que Serra moveu contra Flávio Bierrenbach, seu então colega de partido.

Em 1988, José Serra foi acusado por Bierrenbach de ter entrado pobre e saído rico do governo Montoro, onde foi secretário de Estado. Serra iniciou um processo contra Bierrenbach por calúnia, injúria e difamação.
Bierrenbach solicitou ao juiz da 2a Zona Eleitoral, então o Dr.Wálter Maierovitch, o que se chama exceção da verdade, ou seja, o direito de provar que não é calunioso ou difamante (ou seja, que é verdade) o que havia sido afirmado.
O juiz atendeu e, então, Serra tentou reduzir o processo ao de injúria, que juridicamente não comporta a comprovação de ser verdadeiro o que se afirmou.

Outro exemplo de mídia que deforma os fatos ao invés de informar é a Rede Globo de televisão.
A manipulação descarada das eleições de 1989 já entrou para a História. Vamos pegar um fato mais recente.
arma branca: bolinha de papel

Quem não ouviu falar da perigosíssima bolinha de papel na cabeça, que levou o Serra a fazer uma tomografia?

Quem viu o incidente no Jornal Nacional (ou melhor, viu a versão Globo dos fatos, já que o momento em que o objeto atinge o candidato não foi exibido) deve ter ficado preocupado com a saúde de Serra e com a violência dos militantes do PT!


E quando a Globo e a Record mostraram a mesma visita de Serra à Zona Leste de São Paulo com duas histórias completamente diferentes?



(não estou dizendo que a Record é melhor ou pior do que a Globo. Sinceramente, não assisto nenhuma das duas)


Claro que esse negócio de não apenas tomar partido na disputa eleitoral mas manipular a opinião pública com distorções e mentiras não é de agora.
Talvez esteja ficando mais difícil de esconder.
Espero que isto signifique que essa situação se reverta em um futuro próximo, e fica aqui minha pequena contribuição para que isto aconteça.

Serra Veja Folha Estado

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Liberdade de imprensa... liberdade?

Quem já entrou no site do jornal O Estado de São Paulo provavelmente já notou o aviso afirmando que ele se encontra "sob censura há 433 dias". Ele refere-se a uma proibição judicial de "publicar reportagens que contenham informações da Operação Faktor", envolvendo a família Sarney.

Pois este mesmo jornal que defende a "liberdade de imprensa" censurou esta semana uma de suas próprias articulistas.
Após publicar um artigo intitulado "Dois pesos...", no dia 2 de outubro, no qual expõe algumas denúncias infundadas que vêm sendo propagadas na internet por defensores da oposição, a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida do jornal (veja entrevista com a psicanalista no Terra), tornando o título de seu artigo ainda mais apropriado.
Essa tal "liberdade de expressão" vale apenas para os donos dos jornais. Quem não concorda com a opinião deles é demitido. Você ainda acreditava que jornais serviam para informar?
E viva a democracia!

Leia abaixo o artigo de Maria Rita Kehl, vale a pena:


Dois pesos...

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Eu não irei a Yellowstone"

Este texto foi publicado no blog de Matthieu Auzanneau, jornalista independente, no dia 06 de agosto de 2010.

Eu não encontrei esse texto em português em lugar nenhum, então fiz um esforço para traduzir do francês e postar aqui.
Meu francês não é muito bom e eu peço desculpas.
Todas as aspas, parênteses, chaves, negritos e itálicos estavam assim no original.

Eu não irei a Yellowstone

Há algumas semanas, cruzei as Montanhas Rochosas de carro. Eu estava nos EUA para uma série de reportagens que devem preencher um livro no qual estou trabalhando. Eu sempre quis ir a Yellowstone, um dos parques naturais mais célebres da América do Norte, na fronteira entre Montana, Wyoming e Idaho, um canto perdido de altos vulcões, gêiseres e grandes vales cobertos de pinheiros e abetos e onde os animais selvagens são abundantes, livres, longe das cidades e das rodovias.

Eu sonhei muito com a América, realmente! Meu espírito viajou freqüentemente pelos topos das Rochosas, e compartilhou tendas com os índios sob os ramos das árvores, enfrentou corredeiras na pista de Lewis e Clark, ou caçou ursos com Teddy Roosevelt. E eu tinha certeza de que um dia veria como é Yellowstone, cujo nome evoca com a mesma força em mim o vigor do mundo antigo e sua beleza irreprimível.

Creio que tudo está morto em Yellowstone, ou quase, e eu não irei lá.

Yellowstone - Matthieu Auzanneau
A algumas milhas da nascente do Colorado; julho de 2010 [foto de Matthieu Auzanneau]

Ao longo dos últimos quinze anos, ao longo de toda a cadeia das Montanhas Rochosas, um pequeno besouro que se alimenta da casca das árvores tem devastado milhões e milhões de hectares das florestas frias de altitude. O aumento das temperaturas registrados tanto no verão quanto no inverno na América do Norte permite que esse inseto se reproduza cerca de duas vezes mais rápido do que antes. Sua população não pára de crescer. Do Círculo Polar Ártico ao México, as conseqüências têm tomado nos últimos anos dimensões assustadoras.

Oito anos atrás, no Alasca, eu já havia tido o coração partido por esse espetáculo de florestas petrificadas, vazias, silenciosas! Em suas bordas, havíamos filmado homens que tentavam cortar o mais rápido possível as árvores mortas, antes que a seca causasse os incêndios cataclísmicos que a América do Norte agora enfrenta a cada verão. Eu criei, então, o primeiro documentário francês mostrando as conseqüências humanas do aquecimento global. Estas imagens mórbidas me assombraram muito, e inspiraram também.

E este ano, sem ter realmente procurado, encontrei-me novamente em meio às árvores mortas. Então eu mudei o curso, atravessei as Rochosas pelo caminho mais curto, fugi para o deserto de Nevada; eu renunciei a Yellowstone, incapaz de suportar, mesmo para uma reportagem, a projeção concreta de nossa impotência durante dias inteiros de estrada.

Carl Jung, um dos pais da psicologia, observou há muito tempo que «as pessoas não conseguem enfrentar excesso de realidade.» A ironia desta frase enfureceu-me por muitas horas, quando eu estava procurando uma maneira de sair da floresta morta.

Sozinho ao volante, tive a sensação megalomaníaca e trágica de tomar na cara o diagnóstico do bom e velho Carl em nome de toda a humanidade.

Encontrar-me quase por acaso no meio de milhões de pinheiros mortos, seis meses após a farsa da conferência de Copenhague sobre o clima...

Por que essa cegueira? Como pode o estado de emergência climática não ter sido declarado por Washington, enquanto a floresta enraizada na espinha dorsal dos Estados Unidos está morrendo? Inacreditável.

[Um relatório publicado em julho pelo United States Forest Service e pelo Natural Resources Defense Council mostra que mais da metade dos pinheiros com casca branca das Rochosas está morta, e que um quarto vai morrer em breve. Isso é o que foi noticiado no fim de julho em um pequenino editorial no rodapé do New York Times, que conecta a epidemia ao aquecimento climático. 80% das florestas da Columbia Britânica podem ser destruídos até 2013, prevê o Natural Resources Canada.]

Próximo às nascentes do Colorado, eu fiz a pergunta acima a um velho senhor barbado sentado em sua caminhonete. Ele estava ali, parado ao longo de uma estrada deserta, o olhar perdido frente à montanha descarnada, um boné Stars and Stripes desbotado encaixado sobre o crânio. Com o sotaque forte do povo do vasto Oeste, ele respondeu, sem convicção: «Eles fazem carros que engolem menos gasolina hoje, e depois fazem uns solares aqui e ali.» Ele não parecia muito convencido. Nós olhamos a floresta em silêncio. E então ele acrescentou, quase para si mesmo: «Ficou muito ruim nesses últimos anos. Temos mais é que rezar pra que tudo queime e que alguma coisa rebrote.»

Na estrada, finalmente vi uns pequenos aglomerados de jovens abetos de um verde benevolente crescendo aconchegados aos pés de seus pais. É idiota, mas eu pensei no destino dos búfalos e dos índios.

Mais tarde, li a seguinte frase no jornal do parque natural das Rochosas: «O problema do inseto comedor de casca (está) lá para nos lembrar da capacidade da natureza de mudar para além do controle dos homens»... O controle dos homens... O sofisma fedia a marketing turístico, e eu comentei isso com um ranger, oficial responsável pela proteção da natureza. O homem me explicou que, em meados da década de 2000, havia existido um programa de informações e passeios educativos sobre o aquecimento global. «Mas não havia muitas pessoas interessadas em participar, por causa das implicações. Há muita controvérsia sobre o assunto, entende, então eles pararam.»

O que “eles” não vão parar, podemos dizer, é de perfurar em busca de hidrocarboneto, o sangue do American Way of Life do qual a sociedade tecnológica parece pouco precisar (por assim dizer). Por toda parte, nas Rochosas, há dois ou três anos, um novo sistema de extração prolifera como cogumelos. Ele serve para "melhorar" o gás de xisto (shale gas), uma forma de gás natural dita "não-convencional", considerada até agora insuficientemente rentável, mas que as empresas de energia começaram a explorar a fundo, na falta de coisa melhor. É sem dúvida uma das últimas corridas em busca de combustíveis fósseis em território americano, um século e meio após as primeiras.

A floresta morreu, e ao redor dela, ganância e necessidade produzem ainda mais veneno.

Yellowstone - Matthieu AuzanneauYellowstone - Matthieu Auzanneau
«Drill, baby, drill!» (Sarah Palin) [fotos de Matthieu Auzanneau]

«As pessoas não conseguem enfrentar excesso de realidade.»: o veredito de Carl Jung não tem recurso.

Na highway 70 que vai de Las Vegas a Denver, a linha divisora de águas entre o Atlântico e o Pacífico, encontrei-me preso em um engarrafamento a cerca de 3000 metros de altitude. Ao nosso redor, a floresta se decompunha a perder de vista. Era um domingo à noite, os moradores do estado do Colorado voltavam de seu fim de semana à beira dos lagos dos altos vales. Muitos puxavam a reboque seus jet skis. O povo do Colorado é conhecido pelo seu amor à natureza. O engarrafamento durou tanto tempo que me fez perder o meu avião para Washington.

Yellowstone - Matthieu Auzanneau
[foto de Matthieu Auzanneau]

Entre os motoristas naquela noite, eu não sei quantos pensavam sobre as mudanças climáticas, ou meditavam a respeito dessa nossa incapacidade de enxergar as conseqüências da nossa dependência de combustíveis fósseis (em um dado momento, como que para me fazer parar, dois enormes jatos militares passaram raspando sobre os picos; o exército treina com freqüência nesta região pouco habitada). As florestas devastadas das Rochosas são muito distantes das megalópoles do Leste e da Califórnia. A morte dos pinheiros e abetos é facilmente esquecida. Fecha-se a porta e liga-se o ar condicionado. De qualquer maneira, a maioria das pessoas ignora completamente que ela ocorre.

Nos dias de verão em Washington DC, ao pé de cada edifício oficial, grandes placas de ventilação vomitam milhões de metros cúbicos de ar quente, empurrados com um rugido do inferno pelos sistemas de ar condicionado.

[Os gases refrigerantes usados na climatização escapam e aumentam o efeito estufa. Assim como a decomposição da madeira, que libera metano, outro poderoso gás estufa.]

sábado, 14 de agosto de 2010

Belo Monte?

Confesso não estar muito a par da polêmica acerca da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Estava sabendo que muita gente, incluindo cientistas e povos indígenas, estão preocupados com as implicações das mudanças na bacia do rio Xingu.
Há alguns dias, li uma entrevista no site do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) que me deixou bastante preocupada também. A entrevista é com André Villas-Bôas, que trabalha com povos indígenas desde 1978 e é coordenador do Instituto Socioambiental (ISA).
Segundo ele, o projeto dessa usina já existe há 3 décadas. Ele chama Belo Monte de “cavalo de Tróia”, pois, para que seu funcionamento possa aproximar-se da capacidade instalada, será necessário fazer outras barragens no rio – causando um impacto muito maior do que o previsto. É como se fossem aprovadas 5 barragens 'pelo preço de uma'.

Leia abaixo a entrevista.

*~*~*~*~*~*~*
IHU On-Line – Por que os índios que vivem fora da área de Belo Monte também estão preocupados com a construção dessa usina hidrelétrica?

André Villas-Bôas – Belo Monte vai afetar diretamente boa parte da bacia do Rio Xingu, dando outro rumo ao curso de água e isso é algo muito grave. Belo Monte vai ter a capacidade instalada de gerar 11 mil megawatts, mas, na verdade, a média de geração ao longo do ano vai ser de 4.600 megawatts, ou seja, a capacidade instalada só vai operar por um mês durante um ano todo. Para que você possa ter a média mais alta de aproveitamento da capacidade instalada, teriam que ser feito outros barramentos acima que pudessem reter água para que fossem liberadas no período de seca. A média passaria de quatro para 9.500 megawatts. Se outras barragens forem feitas, portanto, outras várias áreas indígenas e as unidades de conservação serão atingidas.
Em 2008, o governo afirmou, através de resolução do Conselho Nacional de Energia, que apenas a barragem de Belo Monte seria construída. Porém, esta é uma resolução que pode ser mudada na próxima reunião do conselho. Não há uma segurança de que não serão feitas as quatro barragens rio acima. Os povos da região acham que o governo vai mesmo construir esses quatro barramentos, mais cedo ou mais tarde. Resumindo: Belo Monte é um “cavalo de tróia” de um complexo hidrelétrico que está planejado para o Xingu há muitos anos, mas é só a ponta deste projeto.

IHU On-Line – Qual o argumento das tribos?

André Villas-Bôas – Os Carapó e os Caiapó temem que as outras usinas sejam construídas e que Belo Monte seja o início de um ciclo de destruição do rio Xingu. Tem outros grupos que serão afetados indiretamente, que é caso dos Arara, dos Araraté e dos Paracanã. São grupos cujas terras ainda não foram totalmente demarcadas. Como são terras consideradas como invadidas, podem ser ocupadas pelo fluxo migratório de aproximadamente cem mil pessoas para aquela região em decorrência das obras da barragem.
Então, se a terra dessas tribos não estiver protegida quando esse fluxo ocorrer os problemas provavelmente vão se agravar. O projeto vai desviar uma parte do rio, algo em torno de cem quilômetros, por um canal que vai passar a receber um fluxo de água menor. Esse hidrograma está em aberto dentro dos estudos que foram feitos pelas empresas e isso é determinante para sabermos os impactos e conseqüências da obra na navegabilidade, nos recursos pesqueiros e na sobrevivência de uma série de ambientes florestais localizados na beira do rio, fatores determinantes para os povos indígenas que vivem na região.

IHU On-Line – Como a obra está afetando esses povos?

André Villas-Bôas – Uma empresa que vai investir 30 bilhões numa obra tem interesse enorme sobre a construção desta obra. O que está havendo na região é um assédio em relação às etnias, ou seja, está sendo realizado um trabalho de cooptação sem que haja de fato uma discussão esclarecedora sobre os impactos e as definições de vários aspectos da obra. Com isso, os povos estão se dividindo politicamente.

IHU On-Line – Quem tem feito esse trabalho de cooptação?

André Villas-Bôas – Esse trabalho tem sido feito por parte da Eletronorte, que é a principal orquestradora da construção desta obra. Ela tem uma estrutura forte na região há 30 anos, quando começaram a pensar a viabilização de Belo Monte.

IHU On-Line – O que o senhor, como indigenista, pode falar sobre os problemas da região?

André Villas-Bôas – É preocupante o fato de não haver uma discussão aberta com a sociedade, e com os índios, sobre os impactos das obras. O governo não fez nenhuma consulta pública, que é o momento propício para esclarecimentos, para dizer o que é a obra, qual o sentido dela, quais são os impactos, as preocupações etc. É bastante preocupante essa maneira autoritária de definir as prioridades e desconsiderar as populações locais. O problema se torna ainda maior quando a falta de diálogo se estende para outros projetos na região, como o asfaltamento da BR 136 e 158, que fica do lado leste da bacia do rio Xingu e liga o Mato Grosso ao Pará. Tem ainda a construção de pequenas hidrelétricas na região das cabeceiras do Xingu.
Não são apenas as obras que afetam o povo do Xingu que há 30 anos sofreu com um processo de ocupação muito violento e desordenado e, atualmente, está no centro do desmatamento da Amazônia. Além disso, o quadro fundiário ainda é muito instável, o processo de regulação da área é lento, há muitas áreas que não estão tituladas. A presença do Estado na região é praticamente nula.

IHU On-Line – E como o senhor vê a atuação da Justiça nessa região?

André Villas-Bôas – Ainda é bastante desigual, porque há regiões bastante isoladas onde você não tem muito a presença do Estado, e, portanto, a Justiça chega tardiamente. Em Altamira existe o Ministério Público, mas as condições de governabilidade são baixas, há pouca capacidade de monitoramento dos acontecimentos, como a ordenação do processo de ocupação regional ou o controle do desmatamento.

IHU On-Line – O presidente da Eletronorte tem dito que a maioria das etnias indígenas da região é a favor da obra e que as únicas que são contra estão no Alto do Xingu. Como o senhor vê essa questão?

André Villas-Bôas – O presidente da Eletronorte está falando disto a partir da visão de cooptação que tem. A situação da saúde, das escolas, do grau de estabilidade fundiária é precária, por isso, os povos indígenas não estão preparados para receber os impactos dessas obras, pois são as partes frágeis desta história. O processo de cooptação está dando margem para essas divisões e análises. Eu me pergunto porque não abriram uma discussão ampla e forte junto aos índios antes de cooptá-los. Há 30 anos falam de Belo Monte e nunca conversaram com os indígenas sobre o que vai mudar, sobre a importância das obras. A universidade local tem um campus em Altamira e nunca recebeu qualquer incentivo para pesquisas ou levantamentos sócio-ambientais para que pudessem compreender a obra e seus impactos na região, e, assim, construir planos de mitigação mais consistentes.
Os dados que orientaram os estudos de impacto ambiental foram feitos pelas próprias empresas que elaboraram o projeto de Belo Monte. Veja o nível de promiscuidade a que chegamos! Eu espero que Belo Monte seja um divisor de águas para o futuro das prioridades e da maneira como a sociedade brasileira possa participar destas grandes obras. A sociedade quer informações isentas, quer processos mais transparentes, e não estes processos onde os interesses se entrelaçam no ponto de vista da real demanda de energia do Brasil com os interesses das empresas e construtoras e com os interesses político-partidários.
*~*~*~*~*~*~*

Também no IHU, há uma entrevista com o biólogo Paulo Buckup (UFRJ) intitulada "Belo Monte e o risco de extinção dos peixes do Xingu".
O pesquisador participou de um estudo, publicado recentemente, que aponta que há 819 espécies de peixes que correm o risco de sumir dos nossos rios, número mais de 6 vezes maior que as 133 oficialmente reconhecidas como ameaçadas. E "esse número tende a aumentar, porque, atualmente, toda semana novas espécies são descobertas no Brasil", aponta Buckup.
Ele fala sobre os principais problemas que os rios brasileiros têm enfrentado, e critica a forma como os rios amazônicos estão sendo tratados. Há espécies de peixes que vivem apenas na região de Altamira, e ainda não se sabe qual o impacto das obras sobre elas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Nem tudo são más notícias...

Amanhã (02/08), o presidente Lula deve sancionar a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em um evento que ocorrerá às 15h30 no Itamaraty e contará com a presença da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e do secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Silvano Costa.

Para a ministra, os resíduos sólidos são o maior problema ambiental do país. A produção de lixo é de 170 mil toneladas por dia, segundo o Estado (dados do IBGE falam em 220 toneladas), dos quais aproximadamente 45% vão para “lixões” ou aterros com problemas e 12% sequer são coletados. Quase todas as cidades estão com a capacidade de seus aterros sanitários esgotada. E a situação tende a piorar: “Enquanto a população cresceu 1% no ano passado, o aumento de resíduos foi de 8%”, estima Carlos Roberto Vieira Silva Filho, diretor executivo Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais). “Com a nova vigência, espera-se que consigamos reverter esse cenário”.

lixo em São Paulo
Lixo que se acumula na entrada do Parque da Aclimação, em São Paulo (jan/2010)
Foto de Luiz Pantoja (FotoRepórter)

A PNRS se refere a todo tipo de resíduo (doméstico, industrial, da construção civil, eletroeletrônico, lâmpadas de vapores mercuriais, agrosilvopastoril, da área de saúde, perigosos, etc.) e faz distinção entre resíduo (lixo que pode ser reaproveitado ou reciclado) e rejeito (o que não pode ser reaproveitado).
Com a sanção da lei, o Brasil passa a ter um marco regulatório na área. O projeto tramitou no Congresso Nacional por duas décadas (19 anos só na Câmara dos Deputados), e foi finalmente aprovado pelo Senado no início de julho (aliás, no dia seguinte à aprovação do relatório de Aldo Rebelo sobre o Código Florestal). Depois de sancionada por Lula, a lei será regulamentada por meio de um decreto do presidente, a ser editado ainda este ano.

O objetivo da PNRS é “a não-geração, redução, reutilização e tratamento de resíduos sólidos, bem como destinação final ambientalmente adequada dos rejeitos. Reduzir o uso dos recursos naturais (incluindo água e energia) no processo de produção de novos produtos, intensificar ações de educação ambiental, aumentar a reciclagem no país, promover a inclusão social, a geração de emprego e renda de catadores de materiais recicláveis”, e “estabelece princípios para a elaboração dos Planos Nacional, Estadual, Regional e Municipal de Resíduos Sólidos”, propiciando “oportunidades de cooperação entre o poder público federal, estadual e municipal, o setor produtivo e a sociedade em geral na busca de alternativas para os problemas socioambientais existentes e na valorização dos resíduos sólidos, por meio da geração de emprego e renda.” (MMA)
O Brasil conta hoje com 1 milhão de catadores (segundo o Ministério de Desenvolvimento Social), que ganham em média um salário mínimo e meio nas regiões Sudeste e Sul e de um salário mínimo no restante do País.

Jan Pleiter - catadores de lixo
Catadores de lixo (foto de Jan Pleiter)

Segundo o economista José Oswaldo Cândido Júnior (IPEA), houve um “especial consenso entre empresários, organizações sociais, cooperativas de catadores e o governo federal de que era preciso aprovar aquela proposta.” Ele afirma que “o setor de reciclagem no Brasil já movimenta R$ 12 bilhões ao ano, mesmo sem os incentivos e a segurança de um marco regulatório. O potencial de expansão é enorme, pois apenas 13% do lixo nas cidades são reciclados.”

A lei é inovadora em muitos aspectos, como a “responsabilidade compartilhada” (divisão da responsabilidade pelos resíduos entre a sociedade, a iniciativa privada e o poder público) e a “logística reversa” (“um conjunto de ações para facilitar o retorno dos resíduos aos seus geradores, para que sejam tratados ou reaproveitados”).

lixo - foto de Marcos Prado (Estamira)
foto de Marcos Prado

Outro aspecto, mais polêmico, é que o lixo pode ser utilizado para geração de energia, abrindo a possibilidade de incineração (embora especifique que a emissão de gases tóxicos deve ser monitorada). O projeto incluía um dispositivo que não permitia a incineração de resíduos para geração de energia, a não ser quando esgotadas as opções de reciclagem, porém este foi suprimido no Senado.
O processo de incineração gera gases (dioxinas, furanos) e resíduos (cinzas) tóxicos, que precisam ser controlados e destinados a aterros especiais. Reduzir a emissão desses gases altamente poluentes e carcinogênicos torna o processo muito caro, e a energia gerada não é muito alta. Além disso, pode estimular interesse em uma produção crescente de lixo, uma vez que o consumo de energia só tende a aumentar.
Embora possa parecer interessante, uma vez que temos uma demanda crescente por energia e uma produção também crescente de lixo, a incineração só convém mesmo às empresas incineradoras e às coletoras de lixo (às quais também interessa que haja cada vez mais resíduos, já que são pagas por tonelada recolhida).

Elisabeth Grimberg, diretora da área de ambiente urbano do Instituto Pólis, analisou os pontos altos e baixos da PNRS no Estado.

Pontos positivos:
- ênfase na redução, reúso e reaproveitamento, com incentivos à reciclagem e reaproveitamento;
- referências à participação das cooperativas de catadores e previsão de financiamento para municípios que façam coleta seletiva com catadores, medida indutora do desenvolvimento das cooperativas;
- proibição da importação de resíduos perigosos e rejeitos cujas características causem dano ao ambiente e à saúde;
- estabelecimento de metas e prazos;
- tratamento consorciado de resíduos, que permite a pequenos municípios planejarem conjuntamente a destinação de resíduos;
- remuneração ao Estado, caso ele tenha de se ocupar das atribuições relativas à logística reversa dos geradores.

Pontos negativos:
- o artigo 9°, que abre possibilidades para a “recuperação energética” dos resíduos, ou seja, a incineração;
- a análise do ciclo de vida do produto (que levaria os fabricantes a repensar seus produtos, como o excesso de embalagens) não foi incluída como um processo anterior à coleta;
- o artigo 33, sobre logística reversa, deixa a cargo dos geradores de resíduos (setor empresarial) o arbítrio sobre a execução do processo para produtos em que não há obrigatoriedade prevista na lei. Ou seja, se o gerador disser que não pode recolher um produto, por inviabilidade técnica ou econômica, a sociedade terá de aceitar. Isso exigirá que se trabalhe melhor na regulamentação da lei para que os geradores, se não fizerem a coleta, paguem as prefeituras para que elas possam contratar as cooperativas para tal serviço.
(pelo que eu entendi, isto está previsto pela lei)

montanha de lixo Segundo a PNRS, a deposição dos rejeitos em aterros deve ser a última opção, sendo antecedida em prioridade pela não-geração de resíduos, redução, reutilização, reciclagem e incineração.

A União deverá elaborar um Plano Nacional de Resíduos Sólidos para os próximos 20 anos, a ser atualizado a cada 4 anos. O plano prevê um diagnóstico da situação dos resíduos sólidos, que começa a ser feito este mês.

Sérgio Gonçalves, do MMA, conta que, assim que a lei for sancionada, o governo se reunirá com o setor produtivo para elaborar acordos quanto às formas de colocá-la em prática.

Instrumentos da nova lei:
- planos de resíduos sólidos;
- inventários e sistema declaratório anual de resíduos sólidos;
- coleta seletiva, os sistemas de logística reversa e outras ferramentas relacionadas à implementação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;
- incentivo a cooperativas de catadores;
- monitoramento e fiscalização ambiental, sanitária e agropecuária;
- cooperação técnica e financeira entre os setores público e privado para o desenvolvimento de pesquisas de novos produtos, métodos, processos e tecnologias de gestão, reciclagem, reutilização, tratamento de resíduos e disposição final ambientalmente adequada de rejeitos;
- educação ambiental.

O que isso tudo significa:

- Fim dos lixões
Fica proibido lançar resíduos a céu aberto, inclusive em praias, no mar e nos rios. Apenas o material que não puder ser reutilizado e reciclado poderá ser aterrado ou incinerado. Também é proibida a queima a céu aberto ou em instalações não licenciadas.

- Responsabilidade compartilhada
Fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público dividem tarefas com relação ao manejo sustentável dos resíduos.

- Logística reversa
Produtos com vida útil esgotada (como pilhas, baterias, pneus, óleos lubrificantes, eletroeletrônicos e lâmpadas) deverão ser devolvidos ao vendedor, que fará seu retorno aos distribuidores e daí aos fabricantes, que devem dar a eles a destinação ambiental adequada. Caso os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes repassem para o Estado suas atribuições no âmbito da logística reversa, vão ter de remunerá-lo por isso (o que, por si só, desestimula o desperdício). A lei prevê que a logística reversa será, progressivamente, estendida a produtos comercializados em embalagens plásticas, metálicas ou de vidro.
(A divulgação do MMA inclui os importadores, mas não sei quem seria responsabilizado pela “destinação ambiental adequada” dos produtos importados...)

- Reciclagem
O poder público terá que estimular ações de coleta seletiva e reciclagem, incluindo os catadores no processo. Isso deve ajudar na profissionalização e inclusão social dos catadores de lixo. Embalagens e produtos deverão ser fabricados com materiais que propiciem sua reutilização ou reciclagem.

- Maior controle de resíduos perigosos
Empresas que operam com resíduos perigosos são obrigadas a se cadastrar no Cadastro Nacional de Operadores de Resíduos Perigosos e comprovar capacidade técnica.

- Casas em depósitos de lixo
Será proibida a fixação de moradias em ambientes que sejam ou tenham sido utilizados como depósito de resíduos, assim como a atividade de catadores nesses espaços.


Este último ponto poderá evitar não apenas contaminações, mas também a ocorrência de novas tragédias como o deslizamento no Morro do Bumba, ocorrida no dia 7 de abril em Niterói, quando 47 pessoas morreram soterradas.
O local, onde hoje há uma favela, foi um depósito de lixo de 1970 a 1986. Desativado, sua ocupação foi proibida a princípio, mas, com o tempo, as pessoas construíram suas casas sob as vistas grossas do poder público. “Estas áreas são perfeitamente identificáveis, uma vez que é o próprio município que determina aonde os resíduos sólidos tem que ser depositados”, explica Carlos Roberto Vieira Silva Filho, diretor executivo da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) (eBand). “O que falta é vontade política”.

Morar naquele local é especialmente perigoso devido à declividade, mas qualquer área de depósito de resíduos é imprópria para moradia. O solo permanece instável durante anos, e dele emanam gases inflamáveis e tóxicos provenientes da decomposição do lixo, principalmente o metano, e o chorume contamina o lençol freático e os rios.
E, ainda assim, cerca de 17 mil pessoas na Grande São Paulo moram em áreas de lixões desativados, segundo reportagem do Estado.
Algumas dessas áreas têm projetos para ser transformadas em parques (como o Parque Villa Lobos, em São Paulo), à espera de aprovação e verba para se concretizarem.

Parque Villa Lobos em 1989: um depósito de lixo, literalmente
Área do Parque Villa Lobos em 1989, época do início das obras

Parque Villa Lobos
Parque Villa Lobos hoje

Veja, abaixo, uma reportagem do Jornal Nacional sobre a história do Morro do Bumba:


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Fontes:
Estado
Portal EcoDebate
Ministério do Meio Ambiente
Portal do Meio Ambiente

terça-feira, 22 de junho de 2010

Dois pesos, duas medidas...

Esta está sendo difícil de digerir!

Em meio a toda a comoção causada pelo derramamento de petróleo no Golfo do México – que começou em 20 de abril e ainda continua (veja vídeo ao vivo nesta outra postagem) – uma reportagem publicada no New York Times no dia 16 de junho relata a situação no Delta do Níger, sul da Nigéria, onde grandes vazamentos de petróleo ocorrem há 50 anos.
Mais de 2 bilhões de litros já vazaram no Delta do Níger, o equivalente a um derramamento do navio Exxon Valdez (de 41 milhões de litros) por ano. O petróleo vaza quase todas as semanas, e alguns pântanos há muito tempo não têm mais vida.

petróleo Segundo reportagem da National Geographic, de 2007, relatórios da ONU identificaram diversas estratégias questionáveis empregadas na Nigéria pelas petrolíferas, incluindo: pagar chefes das comunidades pelo direito à exploração; construir estradas ou canais sem estudos de impacto ambiental; arrastar processos por anos nos tribunais; enviar forças de segurança para acabar violentamente com protestos; não limpar o local após vazamentos de óleo.
As companhias também praticam a queima do gás que sai do solo quando o petróleo é extraído, uma prática, teoricamente, ilegal, tanto na Nigéria quanto nos Estados Unidos.
Pessoas moram, literalmente, ao lado de chamas ao nível do solo e do tamanho de prédios, que queimam 24hs por dia, algumas há 40 anos.

A Nigéria é o país mais populoso da África, com 130 milhões de pessoas.
O país produziu mais de 2 milhões de barris de petróleo por dia no ano passado. O petróleo representa 95% das exportações e 80% dos lucros do país. Ironicamente, como as refinarias estão sempre quebrando, a Nigéria precisa importar seu combustível.

Quando a exploração do petróleo começou, na vila de Oloibiri, a Nigéria ainda era uma colônia britânica. O país só se tornou independente em 1960.
Em 1966, dois golpes sucessivos por diferentes grupos militares deixaram o país sob uma ditadura militar.
Uma nova constituição foi promulgada em 1977, e eleições foram realizadas em 1979, sendo ganhas por Shehu Shagari. Porém, em 1983, um novo golpe inicia mais uma ditadura militar, que só terminaria em 1999.
(fonte: Wikipedia)

A a indústria do petróleo foi nacionalizada em 1971. O Estado, em nome da Nigerian National Petroleum Corporation, recebe 55% dos lucros das operações das multinacionais em terra.
Embora, nesse meio tempo, o governo tenha passado de ditadura militar a democracia (duas vezes), uma coisa não mudou: a corrupção.
Apesar da região contribuir com cerca de 80% da receita do governo, a população do delta do Níger é muito pobre e a expectativa de vida é a menor do país.

Port Harcourt, Nigéria
Port Harcourt, a principal cidade da região do petróleo.
Fotografia de Ed Kashi (National Geographic)

O governo documentou 6.817 derramamentos de petróleo entre 1976 e 2001 – praticamente um por dia por 25 anos – mas analistas suspeitam que o número pode ser dez vezes maior. (National Geographic)
Os vazamentos são causados por dutos velhos e enferrujados, nunca fiscalizados devido a uma regulamentação ineficiente ou corrupta, e afetados por manutenção deficiente e sabotagens.

As companhias culpam sabotagens e roubos pelos vazamentos, especulando que membros da comunidade causam derramamentos deliberadamente para receber compensações.
Caroline Wittgenstein, porta-voz da Shell (responsável pela metade da produção do país) em Lagos, disse: "Nós não discutimos vazamento individuais", mas argumentou que a "vasta maioria" é causada por sabotagem ou roubo, com apenas 2% devido à falha de equipamento ou erro humano.

Mas muitos especialistas e autoridades locais dizem que as empresas atribuem excessiva culpa à sabotagem, para diminuir sua responsabilidade.
Ricardo Steiner, consultor de vazamentos de petróleo, concluiu num relatório de 2008 que, historicamente, "o índice de falhas nos oleodutos na Nigéria é muitas vezes maior que aquele encontrado em outras partes do mundo", e observou que mesmo a Shell reconheceu que "quase todos os anos" um vazamento pode ser ligado a um oleoduto corroído.

E não é somente o ambiente que sofre com a poluição.
Em 1999. cidadãos da comunidade de Erovie começaram a ter problemas de saúde (vômitos, tonturas, dores de estômago e tosse) pouco depois que a Shell jogou um milhão de litros de resíduos em um poço de petróleo abandonado. Dentro de dois meses, 93 pessoas haviam morrido da doença misteriosa.

Testes feitos independentemente por duas universidades da Nigéria e três outros laboratórios, conduzidos no ano seguinte, indicaram que a substância despejada era tóxica. Todos os testes confirmaram concentrações muito acima dos limites aceitáveis de chumbo, zinco e mercúrio, que provavelmente contaminaram o solo e a água da região.
A Shell e o governo da Nigéria se recusam a se responsabilizar, afirmando que a substância despejada é inofensiva.
(leia mais no site CorpWatch)

(Gente, acho que já vi esse filme...
Cadê a Erin Brockovich para defender as pessoas e o ambiente, quando o descaso acontece longe dos subúrbios americanos?)


A reportagem da National Geographic discute as repercussões sociais da exploração de petróleo na Nigéria.
As companhias multinacionais não contratam funcionários dentre a população local.
Membros das comunidades, que viviam basicamente da pesca, não têm mais fonte de renda nem alimento.

Em Oloibiri, cuja população baixou de 10.000 a menos de 1.000 pessoas nos últimos 30 anos, o chefe Osobere Inengit pede aos estrangeiros para enviar uma mensagem à Shell. "Diga a eles para nos ajudar. Diga a eles para treinar 50 garotos e garotas do local para empregos." E suspira: "se nunca tivéssemos visto petróleo, estaríamos muito melhor".

Esse descaso social leva pessoas sem perspectivas a atos desesperados. Atos de vandalismo e violência contra funcionários das multinacionais se tornam cada vez mais freqüentes, e seqüestros pelo dinheiro do resgate já se tornaram uma fonte de renda para algumas pessoas.

Militantes de grupos armados, como o MEND (movimento pela emancipação do delta do Niger), matam soldados e seguranças, seqüestram trabalhadores estrangeiros das companhias petrolíferas, sabotam poços e oleodutos e, em ocasião de uma visita de executivos chineses da indústria do petróleo, explodiram diversos carros-bomba na cidade de Warri.

Membros do grupo armado MEND
Membros do grupo armado MEND
Fotografia de Ed Kashi (National Geographic)

O governo da Nigéria responde a esses ataques com devastação. Em uma tarde, uma gangue em Port Harcourt seqüestrou um empreiteiro italiano que trabalhava para a companhia petrolífera Saipem. Durante o seqüestro, um soldado foi morto. Dentro de poucas horas, tropas invadiram uma favela e atearam fogo a todas as construções, exceto um banco. Por volta de 3000 pessoas perderam suas casas.

O primeiro protesto em massa na Nigéria contra a indústria do petróleo ocorreu em Ogoniland.
Em 1990, o escritor Ken Saro-Wiwa fundou o Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni (Mosop) organização que representa o povo Ogoni em sua luta por direitos humanos e ambientais na Nigéria.
300.000 membros da comunidade, quase metade da população, marchou em 1993 para denunciar a poluição no delta do Níger pelas grandes companhias petrolíferas estrangeiras. No mesmo ano, a Shell, alegando preocupações com segurança, parou a produção de seus 96 poços em terras Ogoni – embora poços localizados fora da área ainda tivessem dutos atravessando o território.
Alarmado pela popularidade de Saro-Wiwa, o governo militar de Sani Abacha acusou-o e a outros oito ativistas de instigar o assassinato de quatro líderes de uma facção rival. Eles foram condenados, em um julgamento considerado uma farsa, e enforcados em 1995.

Ken Saro-Wiwa
Ken Saro-Wiwa

Os Ogoni entraram com uma ação judicial contra a Shell, acusando-a de cumplicidade com o regime militar nos enforcamentos dos ativistas.
Em 2009, a Shell aceitou pagar 15,5 milhões de dólares (menos de 0,01% do lucro anual da companhia) de indenização para o povo Ogoni, em acordo obtido extrajudicialmente às vésperas do início do julgamento. A companhia, entretanto, se declara inocente das acusações, afirmando que o pagamento foi "um gesto humanitário". (BBC Para África)

Os protestos, hoje, não são freqüentes, e quando ocorrem são respondidos com violência.
A reportagem do NYT informa que, no mês de maio, soldados que guardam um local da Exxon Mobil espancaram mulheres que realizavam uma manifestação.

Em outro caso, documentado por jornalistas estrangeiros em 1998, a Chevron enviou tropas de helicóptero durante um protesto pacífico em uma de suas plataformas, em território da comunidade Ilaje. As tropas mataram dois jovens e feriram dezenas de pessoas.
Dez anos depois, a Chevron foi à Corte Federal dos Estados Unidos responder pelo episódio. Embora a companhia não tenha sido considerada responsável pelas ações dos militares, não negou ter pago os soldados, fornecido transporte e direcionado-os no dia dos ataques. (The True Cost of Chevron)

A Chevron têm uma longa tradição em contratar pessoas influentes.
Segundo postagem no Amautadiarie's Blog, Condoleezza Rice foi, por muito tempo, diretora da companhia, e o advogado recém contratado é advogado do Pentágono, William J. Haynes, que defendeu “técnicas severas de interrogatório” (eufemismo para “tortura”).
O General James L. Jones, conselheiro de segurança do presidente Obama, foi membro diretor em 2008, até receber o cargo na Casa Branca.

logo do Verdadeiro Custo da Chevron Uma lista de abusos da Chevron, não somente na Nigéria mas também nas Filipinas, Kazaquistão, Iraque, Angola, Equador, e também nos Estados Unidos e Canadá, é detalhada em um "relatório anual alternativo", preparado por ongs e distribuído a acionistas da Chevron. O relatório está disponível ao público em The True Cost of Chevron (“O Verdadeiro Custo da Chevron”)

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O estado das coisas no Equador é chocante.

Apesar de diversos documentários já terem sido feitos sobre a contaminação (como Justicia Now!, disponível gratuitamente na internet, e o documentário Crude), o assunto ainda é pouco conhecido.
Eu não sabia até hoje!

O vídeo abaixo – falado em espanhol e com legendas em inglês – fala sobre a contaminação de petróleo na Amazônia equatoriana



A Texaco começou a extrair petróleo em uma área da Amazônia equatoriana afastada dos centros urbanos na década de 1960.
Após 23 anos de operações, havia derramado 64 milhões de litros de petróleo e 68 bilhões de litros de água contaminada e tóxica, segundo a organização ambientalista Amazon Watch.

Crude - documentário sobre o desastre do petróleo no Equador O documentário Crude, dirigido por Joseph Berlinger, mostra a batalha legal que já dura 17 anos entre a Chevron e 30 mil equatorianos, que alegam que a Texaco, comprada pela Chevron em 2001, derramou nos rios da região 70 bilhões de litros de resíduos tóxicos, deixou 916 fossos com dejetos e queimou milhões de metros cúbicos de gases contaminantes.
Os resíduos tóxicos seriam a causa de uma epidemia de doenças, como a leucemia: a demanda vincula 1.401 mortes por câncer na região com a contaminação causada pela Texaco entre 1985 e 1998.

Mas a visão da Chevron é diferente. "Vemos as fotos, vemos a contaminação e não é só nossa", disse o próximo gerente-geral da companhia, John Watson, no auditório da Câmara de Comércio dos Estados Unidos.

Nos anos 90, a Texaco cedeu suas operações à estatal PetroEquador, que continua explorando os poços e admite continuar lançando água suja no meio ambiente.
A Chevron diz que testes científicos mostram que a água é segura, que as doenças têm outras causas, que a Texaco limpou sua poluição e que a responsabilidade pelo problema é da companhia estatal.

"Muitas das práticas habituais da Texaco se mantêm, embora a PetroEquador tenha feito mudanças desde a saída dessa empresa para operar com mais responsabilidade", afirmou Luis Yanza, membro da equipe de advogados dos demandantes. "A Texaco desenhou um sistema que contaminou e tem toda a responsabilidade".
Outro advogado, Pablo Farjado, diz no documentário que a PetroEquador não é inocente, e sugere que questionar a estatal pode ser o próximo passo.

Em 2002, a Chevron convenceu o juiz norte-americano Jed Rakoff a transferir o caso para tribunais do Equador, país que na época tinha um governo conservador ávido por capitais estrangeiros. A condição foi que a empresa se abstivesse de questionar uma eventual condenação no Equador na justiça dos Estados Unidos.
Agora o caso fica cada vez mais emaranhado no Poder Judiciário equatoriano (sob acusações de corrupção, feitas pela Chevron), algo que, segundo os advogados dos queixosos, era a intenção da companhia.

Um estudo concluiu que a Chevron deve pagar US$ 27 bilhões para limpar o meio ambiente e compensar as comunidades afetadas.
"Será muito caro limpar, mas ainda assim será bem menos do que o lucro obtido pela empresa no Equador", disse na semana passada outro advogado dos queixosos, Steven Donzinger.
As recentes estimativas da dívida da BP pelo desastre no Golfo do México, entretanto, sugerem que os US$27 bilhões são muito pouco.

Em maio, uma decisão da corte americana ordenou que Berlinger entregasse os copiões do documentário à Chevron.

Fontes:
Luta contra a Chevron vira filme (IPS – 30/10/2009)
Documentarista de "Crude" é obrigado a entregar copiões de filme à Chevron (Estadão – 07/05/10)

Daryl Hanna procura conscientizar sobre desastre no Equador
A atriz Daryl Hanna, o advogado Pablo Fajardo, e Emergildo Criollo, uma das vítimas do desastre.
© Amazon Watch

O blog Chevron in Ecuador divulga notícias sobre o caso (11/06/10: homem que denunciou corrupção na Chevron do Equador é ameaçado de morte).

No site ChevronToxico – campanha por justiça no Equador, pode-se ver os efeitos da contaminação na saúde da população e ler notícias e documentos.
O site possui também uma petição, a ser enviada a representantes da Chevron. Pode assinar.

E a Chevron não é a única companhia com problemas no Equador...
A Petrobrás também é acusada de causar contaminação que levou membros de comunidades indígenas à morte no país. O site Soberania.org noticiou, em 2008, que “crianças das Comunidades de Palo Azul já começaram a morrer devido à contaminação por petróleo extraído pela Petrobras”, que jogaria resíduos nos rios. "Cerca de 70% das crianças das quatro comunidades adquiriu uma doença de pele que certamente é causada pelo benzeno, um dos hidrocarbonetos aromáticos cíclicos do petróleo". "A doença de pele é acompanhada de outros sintomas que tem levado a morte."


Apesar de todos os problemas, a economia do Equador depende da exportação do petróleo, e uma solução parece distante.
Porém, segundo o blog Planet Green, uma iniciativa poderia evitar problemas futuros:
O Equador apresentou um projeto para deixar intactos os 850 milhões de barris de petróleo existentes no Parque Nacional Yasuní, em troca de financiamentos dos países desenvolvidos.
A reserva Yasuní não só tem uma riqueza biológica inestimável, como abriga tribos indígenas que nunca tiveram contato com o homem. O total de áreas protegidas representa nada menos que 38% do território equatoriano.
O website da iniciativa, criado pelo governo, incentiva doações de países, organizações e até particulares.

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É vergonhoso como a comunidade internacional não toma conhecimento do que acontece nesses países.

Terisa Turner, coordenadora da ong International Oil Working Group, descreveu a conduta das companhias de petróleo multinacionais no delta do Níger ao longo de décadas como "racismo ambiental". "Essas práticas não são, e nunca poderiam ser, conduzidas na Europa Ocidental ou na América do Norte, e não deveriam ser praticadas em nenhum lugar." (CorpWatch)

Será que, agora que um país rico e que comanda a mídia internacional também está sofrendo as conseqüências da ganância da indústria petrolífera, alguma coisa vai mudar?

No dia 15 de junho, um dia antes da reportagem sobre a Nigéria no New York Times, o presidente dos EUA Barack Obama fez um pronunciamento sobre o vazamento de petróleo no Golfo do México.

Algumas frases que merecem ser repetidas:
"Uma das lições que aprendemos com esse derramamento (…) é que não importa o quanto melhorarmos a regulamentação da indústria; a busca por petróleo hoje envolve grandes riscos."
"Petróleo é um recurso finito. Nós consumimos mais de 20% do petróleo do mundo, mas temos menos de 2% das reservas."
"A tragédia que se desenrola em nosa costa é o mais doloroso e poderoso lembrete até hoje que o tempo de adotar energias limpas é agora."
"Há custos associados a essa transição, e há quem acredite que não podemos arcar com esses custos agora. Eu digo que não podemos arcar com não mudar o modo como produzimos e usamos a energia, pois os custos a longo prazo para a nossa economia, segurança nacional e meio ambiente são muito maiores."

Quando estas palavras deixarão de ser palavras?

BP, Chevron, Shell, Petrobrás...
Parece que nenhuma empresa petrolífera está limpa. Com perdão do trocadilho.
A indústria do petróleo é uma indústria criminosa e precisa assumir responsabilidade por seus atos.

Não podemos mais continuar com este nosso modo de vida!
É simples assim.
Temos que acordar. Chega de petróleo.

Por que defender as baleias?

jubarte A Comissão Baleeira Internacional está reunida esta semana em Agadir, no Marrocos.
Sofrendo pressão de ambientalistas, de um lado, e de países que caçam baleias (Japão, Islândia e Noruega), de outro, e em meio a acusações de corrupção, a reunião pode ser decisiva para o futuro desses animais.

Uma proposta que abre um precedente perigoso está sendo seriamente considerada: acabar com a moratória à caça, em vigor desde 1986, autorizando a caça comercial aos três países, pelos próximos dez anos.
Defensores da proposta afirmam que liberar a caça e definir cotas anuais poderia, ao contrário do que se supõe, reduzir o número de baleias mortas anualmente.
Se um acordo entre os dois lados não for alcançado, o Japão ameaça sair da Comissão Baleeira Internacional.

A moratória não proibe todo e qualquer tipo de caça. Ela permite que povos que caçam de forma tradicional (de forma não predatória) como parte de sua cultura mantenha a prática, e também permite que se mate um determinado número de baleias para "fins científicos" (cláusula da qual o Japão se aproveita para matar milhares de baleias todos os anos - e que precisa de regulamentação para definir quais "fins científicos" são justificáveis e quais não são).

cachalote O site de cyberativismo Avaaz já coletou mais de 1 milhão e 20 mil assinaturas contra essa proposta - veja (e assine) aqui. O Greenpeace também está recolhendo assinaturas.


Como pode uma cultura que considera normal matar e comer vacas condenar a caça de baleias pelo povo japonês? Ou, nas palavras de Ian Moore em um comentário à coluna no site da BBC News "Whales and dolphins - 'resource' or 'right'?" (de Margi Prideaux), "o que acharíamos se hindus começassem a usar ações diretas para nos impedir de continuar comendo bife"?

(aqui eu preciso abrir parênteses e dizer que, no mínimo, tanto as baleias quanto as vacas deveriam ser tratados com respeito e "humanamente", o que não acontece... e acrescento que diminuir o consumo de carne bovina não é bom somente para os bois e vacas, mas é bom também para a sua saúde e para a saúde do planeta)

Não podemos defender as baleias apenas com argumentos de que elas são lindas e majestosas, pois isso é relativo.
E apelar para o valor da vida cai no embate acima: se você defende as baleias mas não é vegetariano, você é um hipócrita.

O texto de Margi Prideaux usa como argumento contra a caça as inúmeras pesquisas científicas que vêm demonstrando que cetáceos (baleias e golfinhos) têm capacidades cognitivas (vulgo "inteligência") impressionantes e incrivelmente semelhantes às nossas (o que é ainda mais espantoso, porque eles vivem em um ambiente muito diferente do nosso e nossas linhagens evolutivas divergiram a muitos milhões de anos.
Com base nisto, Prideaux acredita que os cetáceos merecem ser tratados de modo diferenciado dos outros animais - com maior respeito.

Fazem falta, no texto, referências a alguns trabalhos científicos. Dentre os comentários, havia quem duvidasse das afirmações da autora.
Existem muitos artigos, alguns disponíveis online gratuitamente. Golfinhos e baleias são, mesmo, muito "inteligentes".

Claro, suas capacidades são bem diferentes das nossas em muitos aspectos. Por exemplo, algumas espécies são capazes de "enxergar" utilizando o som ("sonar"), o que é muito útil quando se vive na água e a luz nem sempre está presente ou a visão não é muito confiável. Cetáceos também não dormem como nós, mas descansam partes do cérebro alternadamente, o que também é útil quando se tem que subir à superfície da água para respirar.

Mas os cetáceos também fazem coisas que poucos animais, além de nós, podem fazer, ou ainda que pensávamos ser exclusivamente humanas. Golfinhos, por exemplo, vivem em sociedades muito complexas (talvez só comparáveis às nossas, em termos das exigências cognitivas para a vida nestas sociedades); se reconhecem no espelho (ver artigo de Reiss & Marino, 2001 - disponível gratuitamente e com fotos e vídeos!); algumas espécies possuem sons únicos associados a cada indivíduo ("assobios-assinatura"); compreendem gestos referenciais ("apontar") feitos por humanos e apontam objetos para humanos espontaneamente (sem treinamento) (Xitco et al., 2001 - artigo também gratuito e com muitas fotos); são capazes de imitar sons e movimentos corporais; e talvez sejam capazes de ensinar ativamente seus filhotes (conforme descrito no artigo muito legal de Bender et al., 2009, com vídeos e tudo - disponível aqui, mas é preciso pagar para acessar, infelizmente).

golfinho imita gestos humanos
Golfinho nariz-de-garrafa imita gestos humanos - imagens do site do Dolphin Institute, de pesquisas com golfinhos

Para quem acredita que tamanho é documento, os golfinhos possuem o segundo maior tamanho de cérebro em relação ao corpo (perdendo só para os humanos, mas ganhando dos chimpanzés), e o maior número de circunvoluções ("dobras" - mais do que nós!).
cérebro humano comparado ao cérebro de um golfinho nariz-de-garrafa
Comparação entre o cérebro humano e o de um golfinho nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus)
Do artigo "Convergence of Complex Cognitive Abilities in Cetaceans and Primates" (Marino, 2002)

E tanto golfinhos quanto baleias transmitem comportamentos socialmente - e esses comportamentos se modificam ao longo do tempo e variam entre diferentes populações, podendo-se dizer (a depender da definição que se dá à palavra) que esses aimais possuem "cultura". Por exemplo, o canto da baleia jubarte modifica-se pouco a pouco ao longo dos anos e varia entre diferentes populações, e se um indivíduo imigrar para uma nova população é possível que os residentes imitem seu canto. E grupos de orcas ("pods") em Vancouver, Canadá, podem ser diferenciados pelo seu conjunto de vocalizações (que os pesquisadores chamam de "dialetos").
(veja o site da pesquisa com as orcas em Vancouver)


Tudo isso é fascinante, mas será que é motivo suficiente para proteger esses animais?
Isso implica discussões éticas e morais profundas... quão "inteligente" um animal precisa ser para ter direito à vida?

O melhor argumento contra a caça é que baleias e golfinhos correm, sim, seríssimo risco de extinção, e a taxa de reprodução deles é muito baixa, de modo que indivíduos mortos dificilmente são repostos e a população declina rápido.
Apesar da "proibição", a caça mata aproximadamente 2 mil baleias por ano, incluindo espécies à beira da extinção como a baleia azul (Balaenoptera musculus, o maior animal que já existiu na Terra), a cinzenta (Eschrichtius robustus), a franca do norte (Eubalaena glacialis) e a bowhead, ou cabeça-redonda (Balaena mysticetus).
Só o Japão caça mais de mil baleias por ano, e nos territórios que foram declarados santuários de baleias em 1994 pela sua importância para a conservação desses animais, nos oceanos Índico e Austral.

E ninguém jamais menciona que, além da caça, a sobrevivência das baleias também é ameaçada pelas mudanças climáticas, pelas contaminações (dúzias de golfinhos já foram encontrados mortos em decorrência do vazamento de petróleo no Golfo do México!), pelo desequilíbrio ambiental e escassez de alimento, pelas capturas acidentais e pela poluição sonora dos oceanos.

Além disso, os animais demoram para morrer, são esquartejados vivos, e certamente sofrem muito - tanto os animais que são mortos quanto os que sobrevivem.
E isso é o mais difícil de aceitar.
O sofrimento de qualquer pessoa ou animal deve ser evitado a todo custo!


Ontem (segunda-feira), foi distribuído na reunião um relatório sobre a situação das baleias, para guiar as decisões da Comissão. Segundo o relatório, seria permitido matar até 3.860 baleias até 2014 (uma redução de apenas 8% em relação às capturas atuais).
Porém, muitos pesquisadores discordam dessa afirmação. Vincent Ridoux, delegado científico francês em Agadir, afirmou que essas cifras são "resultado mais de negociações políticas que de trabalhos científicos". E mais, "três quartos das delegações não têm pessoal científico, e então apenas abordam o tema do ponto de vista político".
["Acusada de seguir interesses políticos, Comissão Baleeira busca acordo"(Google Notícias)]

É, parece que as perspectivas não são muito boas para as baleias.

Como o presidente da CBI está ausente por motivo de doença, a reunião será presidida por Anthony Liverpool, vice-presidente, de Antígua e Barbuda. Ilha do Caribe que, tradicionalmente, vota a favor do Japão. Segundo reportagem do jornal britânico Sunday Times, a fatura de hotel de Liverpool em Agadir está sendo paga por um empresário japonês.
Pior: ainda de acordo com a reportagem, representantes africanos e caribenhos admitiram ter votado a favor da caça, após terem recebido promessas de ajuda, dinheiro e prostitutas do Japão.
["Comissão Baleeira busca equilíbrio entre o comércio e a proteção" (Google Notícias)]


Carne de baleia não é um recurso que faz falta a ninguém, e sim uma iguaria que pouquíssimas pessoas nos países que defendem a caça consomem.
Os únicos motivos por trás dessa defesa da permissão à caça são o lucro de poucos, colocado acima de tudo, e uma afirmação de poder político e não-submissão aos interesses "estrangeiros".
É, principalmente, uma questão de "orgulho" por parte dos japoneses.

Há muito tempo que as ações de um país ultrapassaram as fronteiras internacionais. O que o Japão faz ou deixa de fazer tem repercussão no mundo inteiro.
O ar é de todos. O oceano é de todos.

É fato que a moratória à caça não está funcionando. Mas o raciocínio de permitir a caça para diminui-la é, no mínimo, perigoso...
Esta reunião está indo na contramão dos esforços globais para a conservação do planeta.
É preciso avançar, e não retorceder!

fêmea e filhote de jubarte
A questão é polêmica.
Eu assinei o abaixo-assinado no Avaaz e no site do Greenpeace, e peço que você assine também!

Uma Baleia Para Matar - capa
Sugiro a leitura do livro "Uma Baleia Para Matar", de Farley Mowat (editora Veredas).

Eu chorei quando li.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Vazamento de petróleo pode continuar por meses

O vídeo abaixo mostra imagens ao vivo do vazamento e das tentativas de contenção realizadas pela BP

Watch live streaming video from wkrg_oil_spill at livestream.com


Quinta-feira (27 de maio), as notícias eram otimistas.
Parecia que a operação “top kill” da BP, que consistiu em bombear fluidos pesados, lodo e cimento no tubo de onde o petróleo está vazando, estava sendo um sucesso.

Entretanto, no último sábado (29/05), a BP admitiu que a operação fracassou, assim como as anteriores.
O plano de instalação de uma cúpula também falhou, devido a cristais de gelo que impediram sua colocação, e a utilização de um tubo para capturar o petróleo que vaza do poço também não funcionou.
Neste sábado, a BP também começou a jogar uma mistura de bolas de golfe velhas, pedaços de pneus e cordas no poço de petróleo rompido, tentando entupi-lo.

O vazamento, a 1500m de profundidade, já dura mais de 40 dias e está despejando por volta de 20 mil galões de petróleo no mar diariamente.
O presidente Barack Obama prometeu na sexta-feira (29) triplicar o número de pessoas que trabalham nas operações de contenção do vazamento, atualmente em mais de 20 mil civis e 1,4 mil membros da Guarda Nacional.

A nova operação da BP para conter o vazamento, já iniciada, é arriscada.
Ela envolve a remoção de um tubo de perfuração quebrado, a instalação de um sifão na válvula existente para conduzir o petróleo para a superfície, e a colocação de uma tampa no poço.

A retirada do tubo poderá provocar um fluxo mais violento de petróleo. Segundo Carol Browner, consultora de energia e mudanças climáticas da Casa Branca, o fluxo de petróleo poderá aumentar em 20% antes que a nova tampa seja colocada sobre o poço.

Os funcionários da BP afirmaram que o procedimento poderia demorar até uma semana para ser realizado, e que não podem garantir que o método, nunca utilizado em profundidades tão grandes, terá sucesso.

Apesar dessa nova tentativa, cresce a impressão de que a maré negra continuará até o mês de agosto, data em que deverão ficar prontas duas tubulações de drenagem que a BP está escavando próximo ao local do vazamento. Browner reconhece que é muito possível que o petróleo "continue saindo do poço até agosto e (até) a construção de poços secundários".


As conseqüências do derramamento de petróleo ainda podem apenas ser imaginadas, mas alguns efeitos já se tornam evidentes.

22 golfinhos e quase 40 tartarugas já foram encontrados mortos na zona de derramamento. Ainda não foi confirmado que a causa das mortes foi o petróleo, mas o próprio Departamento de Pesca dos Estados Unidos lançou um guia sobre os efeitos que o derramamento pode ter sobre mamíferos aquáticos.

Cientistas afirmam ter encontrado pelo menos duas enormes manchas submarinas do que parece ser petróleo, a centenas de metros de profundidade e estendendo-se por quilômetros.
A BP nega que haja evidências de manchas submarinas, afirmando que o petróleo sempre tende a flutuar, mas segundo pesquisadores o petróleo dissolveu-se na água, possivelmente como resultado dos dispersantes químicos usados no combate ao derramamento.

Estima-se que mais de 3 milhões de litros de dispersantes já tenham sido despejados nas águas do Golfo do México, e seus efeitos para a vida marinha são desconhecidos.
A agência ambiental americana, EPA, exige que a BP mude os produtos químicos que vinham sendo usados.


"Parece que as futuras gerações conhecerão o Golfo como o “Mar Negro”. Marco da incompetência de uma empresa pretensiosa, do descaso com as questões ambientais, e de uma sociedade sedenta pelo lucro e pela exploração criminosa dos recursos naturais", afirma Mikael Freitas, da Campanha de Oceanos do Greenpeace no Brasil.

derramamento de petróleo
Como os ecossistemas reagem a desastres com o o do Golfo do México (Revista Época)

Fontes:
Estadão
BBC Brasil
Google Notícias
Greenpeace

domingo, 9 de maio de 2010

O petróleo continua vazando...

Estimativa de galões de petróleo vazando no Golfo do México:



1 galão = 3,78 litros


suicídio pelo petróleo

domingo, 2 de maio de 2010

A catástrofe do petróleo

explosão da plataforma petrolífera no Golfo do México
Conforme noticiado por todos os jornais, uma plataforma perolífera Deepwater Horizon, da empresa suiça Transocean e operada pela British Petroleum, explodiu no Golfo do México, próximo ao Delta do rio Mississippi, no dia 20 de abril e afundou no dia 22, após ficar dois dias em chamas.
11 trabalhadores morreram, e o acidente provocou um vazamento de petróleo gigantesco.

Até quarta-feira, as estimativas eram de cerca de mil barris de petróleo sendo despejados no mar por dia, mas desde então este número subiu para cinco mil barris, ou 800 mil litros de petróleo.

Porém, esse número pode ser muito maior: estimativas citadas pelo The Wall Street Journal calculam que podem estar vazando 25 mil barris de petróleo por dia!

A mancha de óleo já mede mais de 200km e já atingiu a costa da Louisiana.
Os estados do Alabama, Mississippi, Louisiana e Flórida declararam estado de emergência, e o governo dos Estados Unidos declarou o vazamento, nesta quinta (29/04), uma "catástrofe nacional".

A causa da explosão ainda é desconhecida. De acordo com o Último Segundo, um documento anônimo em inglês atribui o desastre a uma falha técnica (óleo ou gás teriam entrado no revestimento da tubulação) associada a erro humano (a tripulação teria demorado para acionar os dispositivos de segurança).
De qualquer forma, o aparelho responsável por cortar o fluxo de petróleo também não funcionou como deveria, e com a destruição da plataforma o oleoduto ligado a ela ficou vazando petróleo.

Até o momento, os esforços para conter o impacto têm sido insuficientes.
Foram utilizados robôs submarinos para tentar fechar os focos de vazamento no oleoduto, sem sucesso. A Guarda Costeira instalou barreiras para tentar impedir que o petróleo chegue à costa, e queimas estão sendo realizadas desde quarta-feira para tentar conter a mancha. As despesas com a limpeza da mancha de óleo estão estimadas em US$ 6 milhões por dia.
A British Petroleum está construindo uma estrutura para conter o vazamento, uma espécie de cúpula gigante (isso me lembra Os Simpsons...). O petróleo se acumularia dentro dela, e seria bombeado para fora, evitando mais vazamento no mar. Hoje, representantes da empresa afirmaram que a estrutura deve estar pronta dentro de uma semana.
Segundo o governo americano, uma solução definitiva deve levar meses.

Enquanto isso, a maré negra continua se espalhando e pode se tornar o pior desastre ecológico da história do país.

Cerca de 40% dos pântanos costeiros do país ficam na região, e esse tipo de ecossistema é muito rico e, por ser relativamente seguro, serve como “berçário” de muitas espécies animais. Uma contaminação por petróleo é mais difícil de ser contida neste ambiente, devido às características da água e do solo e ao emaranhado de vegetação. Também torna-se mais difícil o resgate de animais.

De acordo com o Greenpeace, o mês de abril é temporada de reprodução de peixes, pássaros, tartarugas e outras criaturas marinhas no Golfo do México. “Segundo afirmam pesquisadores, 90% de todas as espécies marinhas do Golfo do México fazem uso das regiões costeiras e dos estuários do Rio Mississipi ao menos uma vez na vida para reprodução”.
Mais de cinco mil espécies de aves migratórias, muitas delas em perigo de extinção, passam pela costa da Louisiana. O Golfo também abriga lontras, tubarões e baleias, como a Cachalote e a Baleia Azul, o maior animal que já existiu no planeta.

baleia azul
Os impactos a curto prazo de um vazamento de petróleo são inúmeros, e os danos ambientais podem ser sentidos durante muito tempo. A região do Alasca que foi afetada em 1989 pelo petroleiro da Exxon Valdez ainda não se recuperou totalmente.

O óleo é hidrofóbico – não se mistura com a água. Por ser menos denso, ele flutua, formando uma camada que bloqueia a penetração da luz solar, impedindo a fotossíntese das algas e fitoplâncton, que são a base da cadeia alimentar dos oceanos.

Os oceanos são a maior fonte de oxigênio para a nossa atmosfera.
A Amazônia é um ecossistema muito importante, mas não é o pulmão do mundo. Estima-se que cerca de 90% do oxigênio presente na atmosfera terrestre seja gerado pela fotossíntese das algas planctônicas.
Por isso, o impacto de desastres ecológicos no oceano pode ser muito maior do que você imagina!

O petróleo também pode obstruir as brânquias dos peixes e os orifícios respiratórios de outros animais marinhos, como tartarugas e golfinhos, impedindo-os de respirar.
Ele se gruda às penas das aves marinhas, tornando-as permeáveis à água e atrapalhando a manutenção do calor corporal, e impedindo as aves de voar. Muitas aves morrem por sufocamento ou hipotermia.
Além disso, a ingestão do óleo tem diversos efeitos tóxicos e pode ser letal. As aves ingerem o petróleo ao tentar limpar suas penas ou ingerir alimento, mas comer alimentos contaminados também pode causar danos à saúde a longo prazo, inclusive em seres humanos.
A decomposição de algas e animais mortos diminui ainda mais o oxigênio na água.
A queima da mancha de petróleo provocará seus próprios problemas ambientais, criando enormes nuvens de fumaça tóxica e deixando resíduos no mar.
ave coberta de petróleo
Voluntário segura uma ave coberta de óleo derramado do navio Prestige, na costa da Galícia, Espanha (Greenpeace).









Em "O custo da energia", fotos da National Geographic Brasil mostram como "paisagens e vidas humanas sofrem com a busca febril por mais combustível"

É impressionante como, apesar de toda a tecnologia que temos para a exploração de petróleo, estamos tão despreparados para lidar com um acidente como este.
Nesses momentos de calamidade nos damos conta de como a nossa relação com os recursos que exploramos é doentia.
Toda a discussão sobre o aquecimento global e o nosso impacto no ambiente não são suficientes para mudarmos de atitude!
Até quando?

Além das atitudes que já deveríamos adotar em nosso dia-a-dia, como reduzir o consumo de combustível, é preciso maior atenção e incentivo a fontes de energia mais limpas e renováveis.
Alguém conhece o Portal das Energias Renováveis? Me deparei com ele hoje, pareceu bem interessante.

E também me deparei com um livro que parece ser leitura básica para entender o mundo: A Tirania do Petróleo. Quero ler!

Fontes:
G1
Estado
Último Segundo
Greenpeace